Como o Call of Duty ajuda a entender melhor a política do mundo

Call of Duty surgiu em 2003, mesmo ano da invasão dos EUA ao Iraque

Há 10 anos, no mundo dos games de tiro, estávamos na Guerra Fria em uma das franquias de videogame mais famosa dos anos 2000, o Call of Duty. E em 2020, teremos uma nova versão, que pode se chamar Black Ops Cold War, de acordo com fontes apontadas pelo site IGN Brasil, um dos maiores portais de notícias relacionadas ao mercado de games. O jogo de tiro deve visitar a Guerra Fria, o conflito geopolítico que redesenhou a maior parte do mundo depois da Segunda Guerra Mundial, e que ainda risca com força as paredes de quase todos os palácios presidenciais das nações da Terra. Para eliminar dúvidas, é só pegar o noticiário político de qualquer nação predominantemente ocidental, ou os perfis de redes sociais de políticos, e verificar os discursos sobre capitalismo e comunismo que neles aparecem. O Brasil de Jair Bolsonaro e os Estados Unidos de Donald Trump que o digam. Era um fantasma apagado, tornado mais sólido nos últimos anos a fim de polarização do atual cenário político mundial.

A Guerra Fria na vida real aconteceu de 1947 a 1991, e muitos historiadores a demarcam quando o bloco soviético desmorona, evento que embaralhou as cartas dos poderosos do capitalismo. E uma das engrenagens mais bem azeitadas do capitalismo é a indústria cultural, e com uma força colossal hoje em dia, o entretenimento digital na forma de videogames é uma das mais relevantes. Usar o principal fetiche americano – o complexo industrial militar – como base desses games, é o feijão com arroz de todo o negócio da máquina cultural dos EUA.

Em 2003, o ano da invasão dos EUA ao Iraque em busca de supostas armas químicas, surgiu o primeiro jogo Call of Duty (frequentemente abreviado como CoD pela comunidade gamer). Trata-se de jogos de guerra, ficção científica e ação em tiro em primeira pessoa (o termo técnico do gênero é FPS). A produtora é a Activision, uma das softhouses mais conhecidas e famosas do mercado, dona de games como River Raid, Enduro e Pitfall, clássicos do videogame.

Call of Duty Black Ops retrata as operações secretas da Guerra Fria dos anos 1960 (Imagens: MobyGames)

O primeiro Call of Duty Black Ops retratava operações secretas da Guerra Fria dos anos 1960 e traçou uma narrativa misteriosa sob a perspectiva do agente Alex Mason. Já o novo game tem previsão de ser lançado para os consoles PS5, PS4, PlayStation, Xbox Series X, Xbox One e PC. As notícias foram divulgadas pela Activision, que ainda relacionou a questão, feita em uma conferência financeira, ao coronavírus, e como ele não afetou ou interrompeu o desenvolvimento do jogo. Outras apostas dizem que a campanha será durante a Guerra do Vietnã. Mas vamos nos ater aqui ao contexto de Guerra Fria.

Teatros de guerra

Os jogos de tiro de CoD passeiam por diversos teatros de guerra que tiverem seu lugar real no mundo. Os primeiros títulos têm como cenário a Segunda Guerra Mundial: Call of Duty, Call of Duty 2 e Call of Duty 3. Em Call of Duty 4: Modern Warfare, de 2007, a ação acontece nos tempos modernos. Call of Duty: World at War retoma o tema da Segunda Guerra Mundial, e Call of Duty: Modern Warfare 2. CoD Black Ops (2010) foi o primeiro a se passar durante a Guerra Fria. Modern Warfare 3 (2011) acontece num futuro próximo. Black Ops II (2012) avança ainda mais e acontece no ano 2025. Em abril de 2015, saiu Black Ops III, e em novembro de 2016, Call of Duty: Infinite Warfare. Em novembro de 2017, a Activision lançou Call of Duty: WWII, que marcou o retorno da série para a temática da Segunda Guerra. Em março de 2018, a Treyarch anunciou Call of Duty: Black Ops IV, que foi lançado em 12 de outubro de 2018. Em outubro de 2019, foi lançado Call of Duty: Modern Warfare.

Muitos desses últimos games citados tem temas sci-fi bem pesados, com armas futuristas, regimes ditatoriais e terroristas, e até mesmo zumbis. O que em 2020, ano de explosão de vulcão, vídeos de OVNIs pela Nasa, pandemia mundial e ascenção de movimentos fascistas e normatização do fascismo e neonazismo, pode estar mais perigosamente perto de ser real do que qualquer um gostaria.

Call of Duty ganha mais importância ao se notar o seu uso militar na vida real. Em 2014, o criador do game Call of Duty foi chamado a Washington para ajudar militares americanos a “visualizar guerras do futuro”. O desenvolvedor Dave Anthony foi ao Centro de Estudos Atlantic Council para fazer os militares pensarem “fora da caixa”. O objetivo era mudar o jeito de pensar, e não sugerir políticas. O cenário apresentado por ele foi drones na guerra, armas inteligentes dando mais poder a indivíduos que a Estados e ciber-desastres. As informações foram largamente noticiadas pela imprensa na época, como essa reportagem da BBC mostra.

A matéria ainda tem um sabor bizarro de 2020, ao indicar que o jogo Call of Duty também era um hit entre militantes do autodenominado Estado Islâmico, que fazem referência a Call of Duty e jogos similares em vídeos de recrutamento. Na época, os games do CoD em destaque eram o Call of Duty: Ghosts (2013), que mostrava uma cronologia alternativa com eventos de uma destruição nuclear do Oriente Médio, graças a uma narrativa envolvendo nações produtoras de petróleo da América do Sul. O outro game da época é Call of Duty: Advanced Warfare (2014), que mostrava o terrível futuro de 2054 em que a organização terrorista KVA é a maior força política do mundo.

O ano de 2013 foi emblemático para o Brasil, com as “Jornadas de Junho” sendo o ponto de inflexão em nossa política, um paradigma que ainda está para ser melhor analisado com coerência por nossos pensadores. Manifestações contra a corrupção, em pautas difusas e esquizofrênicas apartidárias, nos levaram ao lodo em que estamos atolados no momento. Era uma grande timeline analógica de rua com todo mundo escrevendo o que desse na telha em seus cartazes.

Durante os anos em que Call of Duty estava dentros dos videogames de jogadores de todo o mundo, a geopolítica do Oriente Médio era reescrita. Saddam Hussein foi morto em 2006, e Muammar al-Gaddafi morto em 2010. Outro político de grande expressão na região é Bashar Al-Assad, no poder da Líbia desde o ano 2000. Um ano depois da morte de Gaddafi, uma série de protestos levaram à queda de presidentes autoritários e a mudanças de regime no Oriente Médio e norte da África. Essa onda de manifestações em 2011 ficou conhecida como Primavera Árabe, que gerou barulho suficente para derrubar os governos da Tunísia, do Egito, do Iêmen e do Barein. Na Síria de Assad, no entanto, ela foi freada violentamente pelo governo. Assad e sua família, há 40 anos no poder, temiam cair que nem os presidentes do Egito ou Iêmen, ou até pior, encontrar a morte, como Saddam Hussein.

A Síria, prejudicada por essa constante guerra civil e política, foi terreno fértil para que o Estado Islâmico crescesse em poder ali, ai se apropriar de cidades e comércio. Suas origens remontam a 1999, mas foi em 2003 (o ano de lançamento do primeiro Call of Duty) que o organização fundamentalista que segue as leis antigas do Alcorão à risca, se tornou fértil e forte, no terreno arrasado e instável que os EUA provocaram no Iraque ao invadi-lo. O Estado Islâmico se tornou tão grande que conseguiu criar expansão para outros territórios, como a Síria.

Instabilidade

A simetria de forças vista aqui é significativa, ainda mais por conta das chamas que queimam moral e politicamente os Estados Unidos desde a morte de George Floyd por policiais. As manifestações atuais dos EUA se dão depois da morte do ex-segurança negro George Floyd, em Minneapolis. O norte-americano de 46 anos foi asfixiado por um policial branco que usou o joelho para pressionar o pescoço de Floyd, que já estava imobilizado, por quase 9 minutos. A América pode estar perto de vivenciar seu “2013 Brasileiro” – cenário econômico em começo de queda, desemprego, instabilidade social, somados a uma pandemia de vírus e um ano eleitoral crucial para Trump. Tudo isso pode ser o prenúncio de uma Primavera Árabe para o mundo ocidental, lotado de presidentes autoritários, e que se não está tomado por militantes do Estado Islâmico que jogam Call of Duty, estão cheias de fascistas e racistas que com certeza encontram abrigo psicológico na matança eletrônica que games como o CoD promove.

Ter um CoD com destruição nuclear no Oriente Médio quando o Estado Islâmico jogava o game, e ter um novo Cod de Guerra Fria na incerta América – e América do Sul, mais especificamente o Brasil, atolado em narrativas e delírios imaginários de guerra contra o comunismo – será um bom ponto de análise, se ainda estivermos todos aqui no pós-normal que surgirá.

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