Na tentativa de ser diferente, Power é mais um original Netflix mediano

Power, novo filme da Netflix, é mais do mesmo

Com muita ação e outros elementos para impressionar o expectador, novo filme da Netflix não explorou desenvolvimento dos personagens (Foto: Divulgação)

Em mais um filme original, a plataforma apostou em um thriller que mistura todas as formas clichês possíveis, estereótipos com boas cenas de ação e bons efeitos visuais

Não é de agora que a Netflix tem investindo pesado nas produções originais, pensando no diversificado público, todo mês vários conteúdos entram na plataforma e, claro, alguns chamam mais atenção do que outros. Assim como qualquer estúdio, as vezes acertam, às vezes nem tanto, mas no caso do streaming por ser um volume alto de produções os questionamentos giram em torno de quantidade versus qualidade. E claro, quando um filme ou série carrega nomes de peso como em “Project Power”, as expectativas vão lá em cima.

A premissa basicamente é sobre uma nova droga que surge nas ruas de New Orleans, capaz de fornecer superpoderes às pessoas por cerca de cinco minutos. Uma jovem traficante e um policial se juntam com um ex-militar para combater o grupo responsável por criar e distribuir o narcótico. Em partes nada de novo, um filme de ação que aborda o tráfico, quarteis de drogas e um policial que tenta salvar a cidade. Mas a aposta do roteiro era trazer uma mistura de fantasia e ficção cientifica para atrair uma audiência maior e claro uma tentativa de inovar. O problema é que “Power”, título escolhido pela Netflix Brasil, não foge dos clichês que tanto tenta escapar e a mistura com superpoderes funciona até certo ponto para os mais desavisados, mas para aqueles que gostariam de ver algo um pouco mais elaborado, infelizmente o filme é mais do mesmo.

Power, filme da Netflix com Rodrigo Santoro
O ator Rodrigo Santoro interpreta um vilão que também é pouco explorado, mas mesmo diante do problema entrega boa atuação (Foto: Divulgação)

Henry Joost e Ariel Schuman repetem a parceria na direção (ambos dirigiram Atividade Paranormal 4). Os dois apostam nas sequências de ação, nas lutas bem coreografadas, nos efeitos especiais que são bons e na fotografia colorida em sincronia com cada superpoder desenvolvido. Essas cenas auxiliam no ritmo de Power, sem deixar que momentos com um pouco mais de diálogos e de transição fiquem cansativos, o que ajuda a segurar o público. O longa tenta criar um suspense sobre as drogas e seu desenvolvimento, apresentando personagens logo no início com o intuito de distrair dos verdadeiros culpados pela distribuição da pílula, mas esse suspense não se sustenta quando se consegue antecipar o que vem a seguir.

Mattson Tomlin assina o roteiro e a questão aqui é o tanto de fórmula exprimida na caixinha, com toques de grande produção e inspirações nos filmes de super-heróis. Essas pílulas com superpoderes, agem como uma espécie de mutação genética de um DNA humano combinado com o DNA de certos animais ou elementos naturais, quase um X-Men do mundo do crime. Cada pessoa que toma essa droga pode desenvolver alguma habilidade, como um escudo a prova de balas ou camuflagem. E claro, há também espaço para uma conspiração governamental. Sim está tudo lá!

Tomlin introduz a ação e todos os outros elementos para impressionar e parece não ter sobrado tempo para o desenvolvimento dos personagens e suas motivações. A única personagem que conhecemos um pouco mais a fundo é Robin, vivida pela atriz Dominique Fishback (O Ódio que Você Semeia), uma adolescente que para pagar o tratamento da mãe se vê envolvida com o tráfico dessa nova droga. Robin também é um estereótipo, o que não deixa de ser real ou mesmo funcionar, suas motivações são genuínas e a atriz consegue entregar bem nos momentos de tensão e comédia. Ela não faz uso da pílula que vende, o que importa é o dinheiro que pode ajudar a alcançar sonhos e a ânsia por uma vida melhor.

Power apresenta roteiro requentado
Pilula criada em laboratório é o que dá o poder ao usuário do narcótico (Foto: Divulgação)

Já o personagem de Jamie Foxx, Art é uma das peças centrais dessa trama de Power, mas infelizmente pouco sabemos sobre ele e o que de fato passou. Quase nada é revelado sobre o passado desse homem que no máximo é abordado ser um ex-soldado com o objetivo de encontrar o fornecedor das pílulas. A sensação que fica é de que o ator é mal aproveitado. O filme acerta no protagonismo negro, em centralizar nas histórias de Robin (Dominique Fishback) e Art (Jamie Foxx) e trazer mais do que meros coadjuvantes de suas próprias vidas, como muitas vezes ocorre com personagens negros. Em um determinado diálogo entre os dois, Art diz a Robin para focar em seu futuro “esse é o seu poder… use a seu favor, use o seu poder para destruir o sistema…”, essa cena mostra a química do trabalho entre os dois que foi bem explorado ao longo da história. Outro ponto positivo é a escalação de um elenco de peso com Joseph Gordon-Levitt e Rodrigo Santoro, atores que conseguem segurar boas interpretações com um texto simples, mas assim como Foxx pouco é aproveitado dos dois, que podem entregar muito mais.

Em mais um filme original, a plataforma apostou em um thriller que mistura todas as formas clichês possíveis, estereótipos com boas cenas de ação e bons efeitos visuais, mas fica o questionamento: o que é mais importante para a Netflix? E como ela vê o seu público, filmes medianos lançados aos montes e alguns até pretensiosos. Claro que há aqueles que são excelentes como Destacamento Blood, História de uma Casamento e Roma, mas parece que caso não seja lançado pensando para as premiações de prestígio o jeito é requentar aquilo que já foi feito.

Há filmes que são para entretenimento puro, sem muita frescura e que são extremamente satisfatórios, não há problema nisso, a questão é quando a produção e o próprio estúdio/streaming parecem ter preguiça de se esforçar para entregar algo que pode divertir e ser bom. O público merece mais. Para Power falta identidade como muitos outros na barra de busca, ele entretém, mas de longe será memorável e claro não atinge as expectativas.

Ficha Técnica

ANO DE LANÇAMENTO: 2020
GÊNERO: Ação/Fantasia/Aventura
PAÍS: Estados Unidos
DIREÇÃO: Henry Joost e Ariel Schuman
ROTEIRO: Mattson Tomlin
ELENCO: Jamie Foxx, Dominique Fishback, Joseph Gordon-Levitt, Rodrigo Santoro, Courtney B. Vance, Amy Landecker e Machine Gun Kelly
ONDE VER: Netflix

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