Eber Novo: Um Gigante da Imagem

O diretor de TV e cinema, Eber Novo morreu no dia 12 de julho (Foto: Diário do Rio Claro)

*Odair Favari – Especial para a Revista EFE

A primeira vez que estivemos juntos em um empreendimento foi em agosto de 2009, quando das gravações do curta-metragem ‘Moto Perpétuo’, película adaptada do texto teatral de Fausto Brunini, dirigida por Lourenço Favari e produzida pelo Grupo Auê e Fudidos & Malpagos. Divididos entre produção, equipe técnica e atores, passamos um dia inteiro nas dependências do Cemitério São João Batista [em Rio Claro-SP] gravando as cenas com os protagonistas, Michelle Dayane e Cláudio Lopes. Ali, pude constatar a sua paixão pelo audiovisual e, sobretudo, a sua capacidade de superar as dificuldades diante da falta de recursos, fato que muitas vezes emperra as produções independentes, e o resultado não poderia ser outro que a belíssima fotografia do filme que leva a assinatura desse Gigante da Imagem chamado Eber Novo.

Eber Novo e equipe do curta Moto Perpétuo
Equipe de produção do curta-metragem Moto Perpétuo (ainda não lançado). Da esquerda para a direita em pé: Demétrius Camolesi, Michelle Dayane, Claudio Lopes, Thábata Casonato, Eber Novo, Odair Favari, João Paulo Miranda Maria. Agachados: Lourenço Favari e Eder Cardoso. (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois disso, ainda em 2009, voltamos a integrar um projeto de produção de um clipe, no qual, aliás, Eber repetiu a dobradinha com Lourenço, desta vez, dividindo a direção do vídeo para a canção ‘Distância’, da Banda Vernate, liderada por Mari Segretto e que, à época, era um dos expoentes do rock feito por meninas na Região de Rio Claro. O momento marcou também o começo da parceria entre o Grupo Auê e o Festival Rock Feminino, da Produtora Cultural Vivian Guilherme. Passamos um fim de semana inesquecível gravando com os atores Rebecca Gobbi, Daniela Dalla Dea e Max Gobbi, ora na Pousada Ubar, em Ubá, ora na Praça Central, em Itirapina. Mais uma vez, o que presenciei foi um profissional aguerrido que, admito, fez muito com os parcos recursos de que dispúnhamos e que conservou o comprometimento desde o início das gravações até a finalização do videoclipe que, inclusive, pode ser assistido no Youtube.

Videoclipe com direção de Eber Novo da banda de garotas, Vernate

No ano seguinte, comecei a produzir um jornal digital para a TV Cidade Livre e, novamente, meu destino esbarrou com o de Eber que já pertencia ao quadro de funcionários e que, importante ressaltar, foi um dos idealizadores e, asseguro sem medo de errar, a pessoa mais apaixonada e preocupada com cada detalhe do que era produzido por aquela emissora. Durante os dois anos que fiquei por lá, o nosso convívio foi muito bom e, para além dos programas da casa, estivemos lado a lado em várias produções artísticas ao longo da última década. Verdade que nos últimos três anos com menor frequência devido a vários fatores resultantes desses dias maquinais, entretanto, sempre que uma ideia relacionada ao audiovisual brotava na cabeça, ao mesmo tempo surgia o nome do bom e velho Eber Novo.

A nossa última empreitada foi a conversão de um acervo de filosofia que reuni em VHS ao longo da vida. Ao todo, foram digitalizadas mais de 150 horas de gravações que resultaram em nada menos que trinta e oito DVDs, que Eber me entregou em caixinhas com capa e contracapa confeccionadas com esmero e o nome de cada conferência e ou programa anotados. Um trabalho excepcional realizado por um cara que amava o que fazia e que não se contentava com menos que a excelência. Paralelo a isso, digitalizou imagens da Vivian quando criança, as quais seriam usadas na produção de um clipe para a música ‘Metade do que sinto’, composta por mim e gravada por ela, mas, infelizmente, essa empreitada não pode ser concluída por causa da triste notícia do seu passamento, recebida pelos amigos com imensa tristeza.

Vinheta do programa Liquidificador, criado e dirigido por Eber Novo

Escrevo no dia 11 de agosto, véspera de completar um mês de sua morte, e, confesso, há dias vinha ensaiando as palavras que diria sobre esse cara formidável que a gente adorava e conclui que não poderia falar de outra coisa senão de sua paixão pelo audiovisual, o que, de certa forma, era o que o movia e o fazia seguir adiante, apesar das limitações que enfrentou em seus últimos dias. Mexendo em meus arquivos encontrei um registro feito no encerramento das gravações do ‘Moto Perpétuo’, em que segurando disfarçadamente o controle da câmera que eternizou o momento, Eber aparece com seu peculiar meio sorriso à la James Dean. Por ser digital, o tempo que pode contra tudo e contra todos, não amarelou a imagem, porém seguiu pintando de branco os nossos cabelos, menos os de Eber que permanecerá, para sempre, o mesmo jovem da fotografia.

Nota do editor: O diretor de cinema e televisão  Eber Novo morreu no dia 12 de julho de 2020, aos 40 anos. Ele integrava a equipe da Revista EFE, no canal Cacto Tevê no youtube e foi responsável pela edição dos primeiros vídeos disponíveis. Estava a frente de um novo projeto de caráter musical para o canal da Revista EFE. Entre os diversos trabalhos durante a carreira está o programa Liquidificador, a direção de diversos videoclipes e curtas metragens, a participação efetiva no Fest Clip, além de ter trabalhado nos filmes independentes Pirlipsiquice (2004) e Quieta Non Movere (2005) do cineasta João Paulo Miranda Maria.

*Odair Favari é jornalista, produtor cultural e músico. Formado em Letras é mestre em jornalismo cultural pelo Unicamp e foi responsável pela criação do jornal O Beta em Rio Claro-SP, publicação impressa distribuída nos anos 2000 e que modificou a fazer jornalístico regional

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