X-Men: A série animada e o impacto social nos anos 90

Série foi exibida no Brasil em meados dos anos 90 (Foto: Reprodução)

Criado por Stan Lee e Jack Kirby nos anos sessenta, X-Men é uma metáfora de uma sociedade em decadência que normalizou a opressão, mas que ainda há os que resistem ao sistema

A trilogia original dos filmes dos X-Men comemorou 20 anos nos cinemas esse ano. O primeiro filme dirigido por Bryan Singer foi lançado em julho de 2000 e foi um grande sucesso. A franquia cresceu e chegou às telonas mais três filmes focados na história do personagem Wolverine. Em 2011 uma “prequel” (expressão utilizada no cinema para contar uma história que antecede a original) estreava com “X-Men: Primeira Classe”. Essa nova leva de filmes tinha como foco contar como o grupo de mutantes teve início. Ao longo dos anos muita coisa foi abordada e as principais histórias que enchiam as páginas das HQ’s, como o arco da Fênix Negra (da personagem de Jean Grey que se transforma em uma Fênix sem controle de seus poderes) e a dolorosa origem do vilão Magneto foram abordados nos filmes. O último “X-Men: Fênix Negra” lançado o final do ano passado, infelizmente foi um fracasso de público e crítica.

Independente do sucesso ou fracasso nas bilheterias, o impacto causado por essa franquia é inquestionável na indústria cinematográfica e na cultura pop. “X-Men” junto com o seu antecessor “Blade: O Caçado de Vampiros” de 1998, são os precursores do gênero de filmes de super-heróis. Muito antes da Marvel sequer pensar em criar o MCU (Universo cinematográfico Marvel). O sucesso dos mutantes havia se expandido também, com desenhos animados marcando a infância de milhares de crianças e adolescentes com; “X-Men: The Animated Series” de 1992 e “X-Men: Evolution” de 2000.

Mas, isso todo mundo já sabe!

O que gostaria de abordar nesse texto, é como essa franquia maravilhosa é essencial não só para Hollywood, mas para todo aquele que lê as HQ’s ou se dedica em assistir à história desse grupo especial. No meu caso, a primeira memória afetiva com os X-Men é com a animação de 1992, um desenho colorido, cheio de gráficos estilizados e claro de ação. A série foi ao ar na antiga TV Colosso em 1994, programa infantil transmitido pelo canal aberto Rede Globo e depois pela Fox Kids na TV a cabo. Para uma geração de crianças no início dos anos 90 esse era o melhor desenho disparado em meio a tantos outros sucessos como He-Men, Tartarugas Ninjas, Caverna do Dragão e ThunderCats.

Xavier e Magneto do X-Men
Charles Xavier tem um toque de Martin Luther King Jr. – pastor negro que lutou pacificamente em favor dos direitos de igualdade racial – e Magneto pode ser encarado como uma espécie de Malcom X – ativista mais incisivo e radical na luta dos negros norte-americanos. (Foto; Reprodução)

Recentemente um amigo, me emprestou um pendrive com os arquivos desse desenho, que não sei onde ele conseguiu, mas fez da minha quarentena menos tediosa e finalmente fui capaz reviver a nostalgia dessa obra. A animação, assim como todos os filmes, são baseados nas HQ’s criadas por Stan Lee e Jack Kirby. O primeiro volume publicado, foi em setembro de 1963 e conta a história do professor X (Professor Charles Xavier) e sua equipe composta por Ciclope, Fera, Homem de Gelo, Anjo e Jean Grey, entre outros personagens icônicos e multiculturais que se juntaram ao longo do tempo.

É de conhecimento geral que a luta desse grupo vai muito além dos vilões cheios de armas e vinganças, mas também contra aqueles que se opunham aos X-Men levados pelo preconceito dessa nova raça. A narrativa é uma metáfora para abordar luta de classes, direitos civis, racismo, comunidade LGBTQIA+ e evolução genética. Lee e Kirby se inspiraram em acontecimentos históricos dos Estados Unidos e em movimentos que estouravam nos 60 como a segregação no sul do país para criar esses personagens. Charles Xavier tem um toque de Martin Luther King Jr. (pastor negro que lutou pacificamente em favor dos direitos de igualdade racial) e Magneto, que apesar de se declarar inimigo do grupo, é visto com um velho amigo por Xavier, e lembra muito um Malcom X (ativista mais incisivo e radical na luta dos negros norte-americanos).

Assim como King e Malcom, Xavier e Magneto tem o mesmo objetivo, com visões diferentes. Um, a favor de uma integração pacifica para que os humanos entendam que não há o que temer, o outro que os mutantes merecem assim como os humanos a tão sonhada liberdade para serem quem são, sem medo e que essa [liberdade] deve ser tomada a qualquer custo. E é esse o ponto que torna essa história tão sensacional!

X-Men: The Animated SEries
X-Men: The Animated Series, de 1992, foi exibida na rede Globo (Foto: Reprodução)

Mais do que as aventuras e batalhas épicas, X-Men é sobre ser diferente, sobre ser visto como minoria por uma sociedade que está sempre disposta a julgar, mas nunca ouvir ou incluir. A animação de 92 é extremamente direta, ao pontuar isso. Na primeira temporada composta de treze partes, há dois episódios que são extremamente marcantes. No sétimo entitulado de “Ilha dos Escravos” a personagem Jubileu é atraída por uma falsa propaganda de aceitação dos mutantes, um lugar onde não precisariam se esconder. Sendo a única adolescente do grupo, a ideia de ser diferente do resto da sociedade é no mínimo incômoda, por isso a insistência em ir em busca de um lugar onde pudesse ser ela mesma. Acompanhada de Gambit e Tempestade, os três acabam presos nessa ilha onde os mutantes são obrigados a se tornarem escravos por um órgão controlado pelo governo. Esse episódio é uma alusão aos campos de concentração nazista, criados para os judeus na Segunda Guerra Mundial.

Já no nono episódio, denominado “A Cura”, Vampira também se vê em apuros após o surgimento de uma notícia, que fora encontrada a cura do gene X (gene que causa a mutação dos mutantes). A personagem determinada, vai em busca do médico para que possa ser cobaia. Para ela seria uma solução para os seus problemas de relacionamento, já que seus poderes a impede de ter contato humano. A questão da cura nos X-Men sempre foi muito relacionada com as causas LGBTQIA+, que durante anos sofreram [e ainda sofrem] com organizações e religiosos que bradavam sobre a “cura gay”, como se homossexualidade fosse de alguma forma uma doença. A temporada também foca na criação das sentinelas, robôs que perseguem os mutantes, uma espécie de polícia regulamentadora do governo que não aceita conviver com essa nova raça.

Os X-Men falam sobre ser diferente no mundo
Mais do que as aventuras e batalhas épicas, X-Men é sobre ser diferente, sobre ser visto como minoria por uma sociedade que está sempre disposta a julgar, mas nunca ouvir ou incluir (Foto: Reprodução)

Na segunda temporada o episódio “Até que a morte nos separe; parte 2”, o personagem Clint um humano anti-mutantes, captura Jubileu após um mal-entendido entre os X-Men. Levada para uma convenção de uma organização (que faz referência ao fascismo), Jubileu é exibida aos participantes e tida como perigosa, assustada a garota questiona o porquê de tanto ódio contra os mutantes, ao que Clint responde; “Simplesmente vocês nasceram!”. Não há resposta mais cruel, afinal ninguém nasce odiando o seu semelhante, as pessoas aprendem a ser preconceituosas e ressaltar as diferenças como algo negativo.

As temporadas seguintes abordam além das questões político-culturais que envolve a perseguição aos mutantes na sociedade, a saga da Fênix Negra, o surgimento do universo cósmico espacial da Marvel e a participação de personagens queridos pelo público como: Feiticeira Escarlate, Mercúrio e Capitão América. Sempre enfatizando que na luta do bem contra o mal e em grandes batalhas só se é possível vencer com unidade, trabalho de equipe.

Os criadores dos X-Men
Jack Kirby e Stan Lee, criadores dos X-Men e do universo Marvel nos quadrinhos (Foto: Reprodução)

É engraçado anos depois acompanhar novamente essa série e ver assuntos como intolerância e aceitação (de si mesmo e dos outros), serem abordados de maneira tão incisiva em um programa que de uma certa forma era voltado para crianças. Não me recordava de boa parte da trama, talvez por causa da idade, eu devia ter cerca de sete anos quando a animação foi exibida na televisão pela primeira vez. Ainda que os filmes subsequentes tenham abordado as mesmas questões, já que são a base da história dos mutantes, ver o desenho mais uma vez me fez perceber a importância da abordagem e discussão de temas que são ditos como de “adultos”, para as crianças de uma forma natural. Essa é a fase em que o caráter está em construção e que a educação é tão importante para que o ser humano cresça sabendo respeitar o próximo. Crescemos em um mundo em que se normalizou o uso da violência para oprimir e segregar, que fundamentalismo religioso (seja qual for a religião) e ideologias são usadas para manipular e que para alguns é mais fácil se manter na bolha, do que se opor. Mas, acredito que ainda há esperança nas gerações futuras e temos visto isso crescer nos últimos tempos. Movimentos expõe que ainda há aqueles que se rebelam contra um sistema falido. E um show acessível por sua linguagem, voltado para um público jovem que se compromete a discutir esses assuntos é no mínimo louvável.

“X-Men: The Animated Série” pode ganhar um reboot (termo usado no cinema para recomeçar um filme ou série) no streaming da Disney, O Disney Plus, além de claro incluir a original em seu catálogo. O serviço em breve deve chegar ao Brasil. Provável no segundo semestre. Recentemente o produtor Larry Hudson confirmou em uma participação no podcast Wizard World, de que há conversas acontecendo. Agora é torcer para que todos possam rever essa preciosidade o mais rápido possível!

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