Três minisséries que são de tirar o fôlego e vão te segurar no sofá

Minisséries que retratam as questões do cotidiano

Muitas produções são inspiradas em nosso cotidiano, questões sociais, acontecimentos históricos e política. Conheça três produções (Imagem: Divulgação)

Inspiradas em nosso cotidiano e acontecimentos históricos, essas produções propõem um debate muito além do entretenimento.

Dois mil e vinte chegou e com ele a pandemia do coronavírus, uma nova onda de protestos antirracistas, a discussão da violência policial, o desprezo pelos direitos humanos, o cerceamento à imprensa, ataques antidemocráticos, as ações ainda mais brutais do desmatamento na Amazônia, discussões sobre liberdade de expressão, o mundo em recessão econômica…

Ufa! A lista é interminável e cada assunto citado acima é de interesse público e tem que ser discutido, afinal vivemos em sociedade. Na verdade, com exceção da pandemia todos os outros pontos mencionados não são exclusivos desse ano tão atípico, a diferença é a sensação de que tudo está acontecendo ao mesmo tempo, mas o que isso tem a ver com entretenimento, filmes e séries?

Tudo!

Uma das minisséries que refletem o cotidiano é o Conto da Aia
“O Conto da Aia” (The Handmaid’s tale) é uma das produções que reflete inspiração no cotidiano (Foto: Divulgação)

Muitas produções são inspiradas em nosso cotidiano, questões sociais, acontecimentos históricos e política. Roteiros originais, adaptados, mesmo os de fantasia, está tudo ligado. Na série “O Conto da Aia” (The Handmaid’s tale), por exemplo, é sobre um futuro de uma nação comandada por um regime fundamentalista e totalitarista, onde mulheres são escravizadas e violentadas com a única finalidade de reproduzir; baseado no romance de Margaret Atwood, a primeira temporada foi ao ar em 2017 e a quarta está prevista para 2021. Já em “Irmãos de Guerra” (Band of Brothers) a narrativa acompanha uma divisão do exército americano na Segunda Guerra Mundial, que participou de uma das batalhas mais importantes no “Dia D” (quando as tropas invadiram Berlim e tomaram o quartel de Hitler). A minissérie que estreou em 2001 é uma das produções mais aclamadas do canal HBO por tratar o conflito com tamanho realismo e perfeição, produzida por Tom Hanks e Steven Spielberg essa produção elevou todos os níveis de qualidade de todas que viriam a seguir.

Obras como essas são capazes de prender o público horas a fio no sofá, levando milhares de telespectadores a maratonar, mesmo quando os temas são tão pesados. Além dos paralelos com a sociedade atual e assim como “O conto da Aia” e “Irmão de Guerra”, outras três excelentes minisséries lançadas em 2019, valem a pena debater e claro assistir.

 “When They See Us” – “Olhos que Condenam”

SINOPSE: Baseada em fatos, a minissérie aborda o famoso caso de cinco adolescentes, quatro negros e um latino, que foram presos e acusados de estupro, a uma mulher branca que corria no Central Park. Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise, foram submetidos a interrogatórios sem a presença de um responsável ou advogado e coagidos a confessarem.

A história dos “Cinco do Central Park” é um murro na boca do estomago. Os adolescentes que cresceram no Harlem, passeavam no Central Park em uma noite quando foram injustamente acusados do estupro de uma corredora em abril de 1989. O polêmico caso ficou amplamente conhecido na época e teve uma repercussão gigantesca na mídia norte-americana, não ajudou que anos 80 Nova York enfrentava uma onda de violência brutal quase que diariamente. Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, naquele ano usou de sua influência e dinheiro, e comprou artigos em jornais exigindo a pena de morte aos cinco garotos. Com roteiro e direção de Ava DuVernay a minissérie explora a prisão, o julgamento e finalmente a absolvição que viria 13 anos depois. (Isso não é um spoiler, que é a baseada em fatos.)

Dividida em quatro episódios de pouco mais de uma hora, “Olhos que Condenam” é um grito de resistência e uma pequena amostra de como o sistema judiciário vê e é parcial quando raça e classe se juntam na equação. O roteiro é minucioso ao tentar recriar os eventos. Em uma entrevista a Oprah Winfrey, que também é produtora executiva da obra, Ava contou sobre os inúmeros materiais do caso que estudou, documentários e reportagens que a ajudou a recriar os acontecimentos, além da colaboração dos cinco envolvidos.

A experiência de ver a minissérie é extremamente dolorosa, é uma história cruel e revoltante, mas necessária de ser contata e revisitada. A sensação de impotência e inquietação acompanha o público durante às quatro partes. DuVernay é delicada ao mostrar a perda da inocência, dos sonhos destruídos e das consequências sob as famílias. Como no caso de Kevin Richardson (Asante Blackk) que sonhava em ser musico, ou Antron McCray (Caleel Harris), que nunca perdoou seu pai, em uma belíssima interpretação de Michael K. Williams, após uma atitude durante o interrogatório. A fotografia que mistura cores frias e escuras, ajuda na sensação de melancolia e tristeza que a série carrega. Com excelentes atuações do elenco principal; Niecy Nash está irreconhecível como Dolores Wise, a atriz que é conhecida por comédias abraça o drama e entrega uma mãe negligente e preconceituosa.

Os três primeiros episódios focam nesses momentos de perdas e a tentativa de reconstruir uma vida após a passagem por reformatórios dos quatro; Kevin Richardson, Antron McCray, Yusef Salaam e Raymond Santana. O que acarreta em uma perda de ritmo que dá um tom mais novelesco. O último é dedicado a Korey Wise que tinha 16 anos na época e foi enviado a uma penitenciaria estadual.

Wise é interpretado por Jharrel Joreme, que ganhou a estatueta do Emmy Awards (conhecido como o Oscar da Televisão) de melhor ator em minissérie ou filme, batendo nomes de peso como Mahershala Ali, Sam Rockwell e o então favorito Jared Harris por Chernobyl. A história de Wise é ainda mais brutal, a cada surra e violência sofrida na prisão é impossível não ter uma avalanche de emoções. Joreme é o único dos atores que passa por todas as fazes, e essa escolha é certeira principalmente para uma identificação do público com a dor de Korey. A sua força e fé em sua inocência é que o mantém vivo, mesmo quando parece ter desistido de lutar contra o sistema que quase o levou à loucura. Ava enfatiza o desprezo que a sociedade tem pelo corpo negro e deixa claro que é sobre racismo, impunidade e um modelo judiciário que é feito para matar e encarcerar a população negra.

Não é necessário dizer que mesmo agora, 2020, situações como a desses cinco homens continuam ocorrendo, jovens que são assassinados por sua classe, cor e encarcerados sem que tenham um julgamento justo, seja em qualquer parte do mundo ou aqui. No Brasil onde mais de 56% dos cidadãos se declaram negra, parda e indígena a população carcerária chega a 60% segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) colhidos de 2012 a 2019. Infelizmente esse sistema que perdura como herança da escravidão está longe de ver uma real mudança, a diferença é que essa geração faz barulho e não se deixa calar.

FICHA TÉCNICA

ANO DE LANÇAMENTO: 2019
GÊNERO: Drama
PAÍS: Estados Unidos
DIREÇÃO: Ava DuVernay
ROTEIRO: Ava DuVernay
ELENCO: Niecy Nash, Michael K. Williams, John Leguizamo, Joshua Jackson, Jharrel Jerome, Asante Blackk, Vera Farmiga, Marquis Rodriguez, Caleel Harris e Ethan Herisse
ONDE VER: Netflix

Chernobyl

SINOPSE: Baseado no acidente catastrófico da Usina nuclear de Chernobyl na Ucrânia em 1986, pessoas lutam para sobreviver e buscam a verdade em meio a um governo que faz tudo para esconder do mundo o desastre.

Assim como Olhos que Condenam, Chernobyl é uma minissérie difícil de assistir, mas também necessária. Não só pela curiosidade do acidente que quase levou o mundo a um desastre sem precedentes, mas pelo contexto histórico de como a União Soviética negou e tentou esconder o ocorrido. A minissérie começa na noite da explosão do reator, 26 de abril de 1986, levando uma nuvem de partículas radioativas até a cidade de Pripyat-Ucrânia, que ficava aos arredores da usina. A população não tinha conhecimento dos testes realizados no local e muitos homens não faziam ideia do trabalho que realizavam ali. Com a explosão e o fogo, os bombeiros são os primeiros a chegarem na área, o incêndio de proporções inimagináveis tem como agravante a radioatividade, algo que esses homens não estão preparados. A série é incisiva do início ao fim em mostrar o tamanho do horror que se seguiu nos meses seguintes da explosão.

Tudo é abordado, dos homens que morreram ao tentarem entrar reator, a má conduta dos responsáveis, os mineiros levados para trabalharem no local após o acidente e até os animais que tiveram que ser sacrificados por conta da contaminação; cada história contada compõem o triste cenário. Em um dos episódios é curioso acompanhar o caso de uma Senhora que se recusa a deixar a sua casa que está sendo evacuada já que fica na “zona morta”, como ficou conhecido toda área ao redor da usina. Sua resposta aos soldados soviéticos é um choque de realidade de tragédias acumuladas ao longo dos anos, sobreviventes esquecidos por subsequentes governos inaptos.

São cinco episódios de cinquenta minutos, todos dirigidos e roteirizados pelo cineasta Craig Mazin que tem no currículo, filmes como “Se beber não case” e “O Caçador e a Rainha do gelo”. Esse foi o primeiro trabalho que se envolveu desde o roteiro até a produção, e é impecável o modo como retratou os eventos. A produção de arte é sensacional ao conseguir recriar toda a ambientação em conjunto com os excelentes trabalhos de figurino e maquiagem, que trazem um realismo impressionante nos ferimentos sofridos pelos bombeiros e trabalhadores da usina.

Jared Harris vive Valery Legasov, cientista nuclear que é convocado pelo partido comunista para investigar os acontecimentos da noite daquele 26 de abril, a cada passo de sua investigação Legasov descobre o preço das mentiras tão bem contadas. Harris dá uma aula de interpretação a cada episódio, o elenco conta com grandes nomes como Stellan Skarsgård que interpreta o vice-primeiro-ministro Boris Shcherbina, que faz parte da comissão para auxiliar na apuração do desastre. Além de Emily Watson que dá vida a cientista Ulana Khomyuk, uma representação de vários cientistas que ajudaram Legasov a descobrir o real problema das usinas da URSS.

O roteiro pontua como as mentiras e irresponsabilidades de um governo que oculta erros quase explodiram o leste europeu. Na época a URSS vivia em Guerra Fria com os EUA e a corrida armamentista pós Segunda Guerra Mundial, fez com que o partido Comunista construísse várias usinas nucleares, mas a qualidade dos equipamentos e falta de treinamento adequado aos trabalhadores se torna um conjunto de erros. Boris Shcherbina, na série também é uma representação de como ideologias agem, do homem que serviu o estado cegamente para alguém que morre com a verdade, pois essa é subjetiva. Um estado totalitário criado para aprisionar e amordaçar não conta nem os seus mortos, oficialmente o número de mortes é de 31desde o acidente, porque a vergonha não pode ser maior que o orgulho e o poder.

 Legasov enfatiza “Conhecimento e verdade são um crime”. Não importa, direita ou esquerda, o resultado das mentiras é Chernobyl. Há um paralelo com governos atuais, como Hungria, Polônia, Brasil e os Estados Unidos, que usam das notícias falsas para tentativas de controle de informações e no fim não nesse ponto, não se diferem da extinta União Soviética. No caso de Venezuela, Cuba, China, Coreia do Norte, Síria, Turquia, Egito, Rússia, Ucrânia; estados ditatoriais, tem o mesmo modus operandi, utilizam do uso da violência, cerceamento da liberdade e perseguição à imprensa. Anos depois a tão almejada democracia ainda é um estado frágil, que respira com ajuda de aparelhos.

FICHA TÉCNICA

ANO DE LANÇAMENTO: 2019
GÊNERO: Drama
PAÍS: Estados Unidos
DIREÇÃO: Craig Mazin
ROTEIRO: Craig Mazin
ELENCO: Stellan Skarsgård, Jared Harris, Emily Watson, Paul Ritter, Jessie Buckley e Robert Emms
ONDE VER: HBO GO

Years and Years

SINOPSE: A Grã-Bretanha passa por drásticas e instáveis mudanças políticas, econômicas e tecnológicas, o mundo igualmente passa por uma transformação sem precedentes. Nos próximos 15 anos acompanhamos todas essas reviravoltas através do drama da família Lyons.

Years and Years, é uma avalanche de conflitos e brinca com um futuro mais próximo da realidade do que gostaríamos de admitir. Talvez a minissérie menos conhecida dessa lista, mas tão assustadora quanto poderia ser pelos assuntos geopolíticos que aborda. A série começa apresentando uma fictícia família de classe média britânica que tem seu mundo virado de ponta cabeça, após o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia). É interessante acompanhar essa produção um ano após seu lançamento, quando estreou a novela do Brexit, durava há mais de quatro anos e dividiu a Inglaterra; 58% a favor e 48% contra à decisão de se retirar do bloco, nesse meio tempo derrubou dois primeiros-ministros David Cameron e Thereza May.

As consequências políticas e econômicas eram especulativas diante das mudanças que estavam por vir, que modelo de governo assumiria? A moeda seria desvalorizada? “E SE? ”. Na trama o roteiro busca brincar de bola de cristal caso, todas as previsões negativas se tornassem realidade como; a reeleição de Donald Trump e uma Guerra nuclear contra a China, os direitos cada vez mais restritos a comunidade “LGBTQI+”, economia em declínio, conflitos na Europa e ascensão de governos cada vez mais ditatoriais.

Sem esquecer de abordar as mudanças dentro da própria Inglaterra, como as leis de moradia e a obrigatoriedade do voto (que não é exigido no Reino Unido). Elegem uma primeira-ministra que é uma mistura de Trump, Boris Johnson, János Áder (presidente da Hungria) e Bolsonaro, negacionistas de extrema-direita que veem nas Fakes News um apoio na forma de governar. Vivienne Rook vivida por Emma Thompson, representa o ódio ao diferente, o desprezo pela cultura e educação, seu jeito “irreverente” e falácia atraem extremistas e aqueles que veem em sua postura uma quebra do sistema.

Criada por Russel T. Davis, com seis episódios a narrativa coloca o dedo na ferida. Para enfatizar usa da edição de maneira frenética avançando os anos, aumentando os conflitos, a intenção é fazer o público questionar o rumo da humanidade. As transformações são apresentas pelos noticiários cada vez mais assustadores, tornando um caos para o telespectador assimilar. Só desacelera quando nos lembra que também estamos acompanhando um drama familiar, os Lyons são a representação de família e mundo que tanto almejamos; inclusivo e sem preconceitos. Temos um casal inter-racial, um homem gay que se apaixona por um imigrante ilegal, uma cadeirante, uma ativista e Bethany (Lydia West), uma adolescente que quer viver além do mundo real, dentro do espaço cibernético e enxerga no avanço tecnológico uma nova forma de vida.

Apesar de ser uma ficção, sua criação tem o poder de fazer o público questionar a de sociedade estamos inseridos, qual mundo as gerações futuras irão herdar? Essa é a mesma pergunta que alguém fazia a 70, 50 anos atrás em um pós-guerra ou ditadura militar como no caso do Brasil. Houve realmente uma mudança ou vivemos de ciclos? Toda escolha tem consequências. Para um ano tão conturbado como 2020 Years and Years é quase um terror, mas intrigante. Se a visão de Davis para o mundo já era cruel, me pergunto o que teria escrito se tivesse esperado mais um tempo e acrescentado uma pandemia a essa narrativa.

FICHA TÉCNICA

ANO DE LANÇAMENTO: 2019
GÊNERO: Drama/Ficção
PAÍS: Reino Unido
DIREÇÃO: Craig Mazin
ROTEIRO: Simon Cellan Jones e Lisa Mulcahy
ELENCO: Emma Thompson, T’Nia Miller, Rory Kinnear, Anne Reid, Ruth Madeley, Jessica Hynes, Lydia West e Russell Tovey.
ONDE VER: HBO GO

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