Para cineasta brasileiro com filme em Cannes é preciso ‘lutar’ agora

O cineasta João Paulo Miranda Maria dirigindo o ator Antonio Pitanga em cena do filme selecionado para o festival de Cannes, Casa de Antiguidades (Foto: Arquivo pessoal)

Com Antonio Pitanga interpretando Cristovan, um homem em busca de melhores condições de trabalho em um território novo, o primeiro longa-metragem do cineasta João Paulo Miranda Maria, Casa de Antiguidades, entrou para a Seleção Oficial da 73º edição do Festival de Cannes 2020. O anúncio foi feito pela organização do evento no dia 3 de junho.

O trabalho, que representa o Brasil, também é o único selecionado para o festival em toda America Latina. O filme Casa de Antiguidades está na lista ao lado de “El Olvido que Seremos”, do espanhol Fernando Trueba, “Falling”, do norte americano Vigo Mortensen, “The French Dispatch”, de Wes Anderson, entre outros. Ao todo, a Seleção Oficial é composta por 56 filmes, que foram escolhidos entre 2.067 longa-metragens recebidos.

Com roteiro desenvolvido em uma residência do Festival de Cannes foi gravado em quatro semanas na cidade de Treze Tílias, em Santa Catarina.

No novo episódio do programa EFE Entrevista, disponível no canal da Revista EFE no Youtube, o cineasta destaca que a seleção de seu trabalho no meio da crise sanitária causou uma sensação mista, já que mesmo diante da alegria e confirmação ao ser selecionado, aparecem também os problemas que estão ocorrendo no Brasil e no mundo, relacionados à pandemia.

Set de gravação do longa-metragem Casa de Antiguidades (Foto: Arquivo Pessoal)

“Primeiro, é óbvio, uma honra e um orgulho. Não somente é o representante do Brasil, mas representa a America Latina. Foi incrível, pois uma coisa é entrar com curtas, que também é dificil entrar. Agora quando se fala em longa a competição é muito mais selvagem, porque são grandes diretores. Mas diante de tudo que está acontecendo é dificil ter estomago para querer desfilar, falando grosseiramente, estar ali com smoking querendo ganhar o prêmio. Então o festival tomou a melhor atitude: por um lado decidiu não ter, [de outro] anunciar os filmes”, explica o cineasta.

Filme de resistência

João reforça ainda as questões sociais abordadas no filme, como a luta de classes e o racismo. “O nosso filme cabe como uma luva para falar sobre as situações que estão acontecendo”, conta.

De acordo com o cineasta, no roteiro o personagem principal era um homem velho, natural do interior do Goiás, com marcas do tempo. “Alguém rústico, que tem a ver com aquela ideia que cada vez mais vou desenvolvendo que é o Cinema Caipira”, diz.

Em busca de melhores condições, essa personagem parte rumo a uma comunidade do sul, totalmente tradicionalista. “É um outro Brasil que a gente não reconhece, de descendentes austríacos, que só falam alemão”.

Antonio Pitanga atuou no Pagador de Promessas, de 1962, único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes (Foto: Arquivo Pessoal)

O cineasta conta que quando os produtores o questionaram sobre quem ocuparia o papel principal houve um espanto. “A gente não sabia que era um personagem negro”, relata João sobre a reação da equipe quando da escolha pelo ator negro Antonio Pitanga, que atuou no filme Pagador de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte em 1962, única produção brasileira a ganhar a Palma de Ouro em Cannes, além de ter atuado em diversas produções de Glauber Rocha.

“Então o racismo virou um elemento a mais que faz a bandeira do filme ficar ainda mais forte”, avalia o cineasta.

João adianta que o personagem chega na comunidade do sul e vai trabalhar em um laticínio e acaba encontrando uma casa onde revive suas memórias e seu passado. “Vai para o lado surreal, espiritual, uma coisa tão antiga nos primórdios, ate ele se transfomrar em uma outra coisa e vingar. O filme vai para um ponto muito visceral e violento, onde ele responde a essa sociedade”, diz.

A polarização vista atualmente na sociedade brasileira também é discutida no filme, já que questões como integralismo e fascismo compõem o enredo. “Não é um cinema convencional que estou fazendo. Não é uma coisa de gênero para agradar. O filme vem sem medo de arriscar. As pessoas vão se surpreender”, garante.

Sociedade

Assista ao trailer do filme Casa de Antiguidades

O cineasta acredita que este é o momento para os artistas e criadores soltarem a voz e produzirem uma resposta aos acontecimentos que têm despontado no Brasil. “Claro que todo mundo gostaria de ter um discurso de paz e amor. Mas agora está cada vez mais ficando insuportável. Vejo que depois do golpe de 2016 começaram a sair os monstros do armário, que consideram que uma ditadura seria bem vinda”, diz.

Ele considera que a polarização política é prejudicial, uma vez que está gerando focos de conflitos. “O embate não é desejado, porém eu vejo que se não gritarmos alto, se não falarmos alto, se não enfrentar, a coisa vai desabar, decepecionar e vamos nos arrepender de não ter lutado antes”, avalia.

Mesmo fora do Brasil [João Paulo mora com a esposa e filhos na França], ele acredita que pode ecoar a luta brasileira em outros níveis. “Posso lutar pelo Brasil, pela cultura brasileira e levantar essa bandeira. Posso fazer ressoar alto”, destaca.

Sobre os impactos da seleção de seu trabalho foi enfático: “As pessoas querem ouvir o que estou falando e mostrando. É preciso assumir uma responsabilidade. O peso fica até maior. Antes eu poderia até errar, fazia filmes ensaios. Agora é o resultado que importa. E tenho que acertar na veia”.

Quem é

Natural de Porto Feliz-SP, João Paulo morou dois anos em Piracicaba-SP, mas passou a maior parte de sua vida em Rio Claro, no interior do Estado de São Paulo, onde criou o grupo Kino-Olho de cinema, que serviu de escola para diversos profissionais do audiovisual e foi celeiro de criação para sua obra e seu conceito cinematográfico: o Cinema Caipira.

Veja a entrevista completa:

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