Orgulho e preconceito: O cotidiano da população LGBTQIA+

No Brasil, a expectativa de vida de um cidadão comum é de 75,5 anos. Já se tratando de pessoas trans, esse número cai para chocantes 35 anos. (Imagem: Gabriele Castaldi)

No ano de 1969 o mundo presenciava o último show dos Beatles. Enquanto isso, a onda Hippie tomava conta dos jovens, culminando no Festival de Woodstock, considerado o maior evento de rock and roll de todos os tempos.

Se na música o clima era de paz, na ciência reinava toda a tensão da corrida espacial. Graças a ela, Neil Armstrong se torna o primeiro homem a pisar na lua, pronunciando a famosa frase “este é um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade”.

O início de tudo

Logo no mesmo ano, na madrugada de 28 de junho, frequentadores de um bar LGBT também dariam seus primeiros passos em direção ao avanço. Após uma batida policial, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais frequentadores de um bar chamado Stonewall Inn, em Nova York, nos Estados Unidos, resolveram dar um basta às agressões, preconceitos e humilhações.

Por dias, os frequentadores do bar resistiram e enfrentaram a polícia local. A tensão tomou então proporções mais violentas e ganhou o apoio da comunidade que, mesmo após o fim do episódio, foi às ruas protestar e exigir igualdade de direitos.

Esse ato de resistência foi o pontapé que deu origem ao Dia da Libertação Gay da Rua Christopher (Christopher Street Gay Liberation Day), ou, como ficou conhecida, a primeira Parada do Orgulho LGBTQIA+.

Ordem e Regresso

Felipe de Marco, gerente de pub LGBTQIA, relatou a sensação de insegurança que teve início logo que saiu o resultado da eleição em 2018. (Foto: Yasmim Alves)

Graças a esse ato de resistência inicial, essa parcela da população passou a ganhar cada vez mais voz e mais espaço na sociedade. Mas nem tudo são flores. Apesar de terem se passado 51 anos de Stonewall, ainda não é possível frequentar um bar LGBTQIA+ sem preocupações.
“No dia em que saiu o resultado da eleição, nós estávamos abertos e eleitores de Jair Bolsonaro passaram buzinando na frente, gritando alguns insultos e fazendo sinal de arma. Até pedi reforço na segurança do bar aquele dia”, explica Felipe de Marco, gerente do Joaquina Lounge Bar, em Rio Claro-SP, um ambiente LGBTQIA+.

Foi durante as eleições de 2018 que uma onda conservadora atingiu em cheio o Brasil. Jair Bolsonaro (sem partido) declarou diversas vezes ser homofóbico, chegando a dizer que “ter filho gay é falta de porrada” e que “seria incapaz de amar um filho homossexual [..] Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”.

Para Marco, “ser LGBT nunca foi fácil em lugar nenhum do mundo. Porém, devido ao nosso atual cenário político, eu acredito que vivemos uma fase de “retrocesso”, onde temos que lutar novamente por tudo que vínhamos conquistando durante todos os anos que se passaram”, explica.

A narrativa de Bolsonaro levava a crer não só que não haveriam avanços para a população LGBT, mas também que direitos já conquistados poderiam ser revogados. Como consequência desse medo, em 2018, ano anterior a posse, os cartórios lidaram com um aumento de 61,7% em casamentos homoafetivos.

Dados alarmantes

Basta dizer que o Brasil é o país que mais mata transexuais e também o que mais consome pornografia envolvendo essas pessoas para entendermos como funciona nosso comportamento.

Bia Florentino, militante de Coletivo Juntos! que defende a causa LGBTQIA+
Bia Florentino, militante de Coletivo Juntos! afirma que a representação do grupo na mídia é feita de forma caricata. (Foto: Arquivo Pessoal)

Para Bia Florentino, militante de Coletivo Juntos!, “esse dado serve bem para ilustrar o que é ser LGBTQIA+ na realidade brasileira, temos nossos corpos e nossas relações afetivas objetificadas sexualmente, somos representados na mídia de entretenimento de forma caricata, condenados como pecadores e aberrações, além de muitos acreditarem que a sexualidade é passível de cura”.

Em seu último relatório, o Grupo Gay da Bahia registrou 329 mortes violentas de LGBT+ em 2019. Já em 2018, ocorreram 420 casos como esse. “Surpreendentemente”, como disse o fundador do GGB, o antropólogo e historiador Luiz Mott em declaração, houve uma queda de 22%.
Para uma comparação rápida, nos Estados Unidos, que possuem 330 milhões de habitantes, 28 transexuais tiveram mortes violentas. Já no mesmo período no Brasil, com 208 milhões, 118 pessoas trans foram assinados.

O T da questão

Transexuais, como pode-se ver pelos dados, é o grupo que mais sofre com preconceito. Além disso, não se identificar com seu sexo biológico, implica em diversas burocracias.

Por exemplo, você sabia que até junho de 2018 para trocar de nome era necessário comprovação de cirurgia de redesignação de sexo? Ou que para realizar essa cirurgia pelo SUS demanda-se avaliações psicológicas e psiquiátricas durante um período de até 3 anos, com acompanhamentos semanais e diagnóstico final que pode encaminhar ou não a paciente para a cirurgia tão aguardada?

Hoje, graças a uma decisão do supremo em março de 2018, o processo para mudança de nome e gênero em documentos ficou mais simples. Pessoas maiores de 18 anos podem requerer a alteração desses dados, desde que tenham capacidade de expressar sua vontade de forma inequívoca e livre, diretamente no cartório. Já para menores, ainda é necessário entrar com uma ação judicial.

Porém, para a cirurgia de redesignação, o processo continua lento e complexo. Segundo o Ministério da Saúde, apenas cinco hospitais em cinco estados diferentes estão aptos a realizar o procedimento.

Infelizmente muitos transexuais sentem medo de procurar atendimento devido à discriminação. Em uma pesquisa realizada em 2016 pelo Hospital das Clínicas da USP e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, com 620 pessoas transexuais de 18 a 64 anos dos dois estados 43,2% dos entrevistados disseram evitar serviços de saúde pelo simples fato de ser uma pessoa trans. A maioria, 58,7%, afirmou ter sido vítima de discriminação durante um atendimento médico e revelou só procurar um hospital em último caso. Apenas 17,8% dos entrevistados disseram nunca ter sofrido discriminação durante uma consulta.

Devido a cirurgia de resignação sexual ser um procedimento de alta complexidade, muitas vezes se faz necessária a realização de mais de um procedimento. Para não lidar com a demora do SUS, quem almeja a mudança pode recorrer a hospitais particulares que chegam a cobrar até R$30 mil.

E como pagar esse valor? Estima-se que mais de 90% da população trans esteja fora do mercado de trabalho por discriminação dentro das empresas. Isso faz com que muitas recorram à prostituição.

No Brasil, a expectativa de vida de um cidadão comum é de 75,5 anos. Já se tratando de pessoas trans, esse número cai para chocantes 35 anos. Thalles Mariano declara: “pra mim, ser o que sou é triste. É saber como é acordar todos os dias torcendo para que toda vez que saio na rua não venha alguém com a intenção de me agredir. No meu caso, por eu ser trans, é aquele medo cotidiano”.

Para Bia Florentino, é necessário reconhecer os privilégios da cisnormatividade. “Por ser uma mulher bissexual heteronormativa, eu nunca sofri um ato direto de LGBTfobia, mas enfrentei alguns desafios ao me assumir para família e amigos, muitos preconceitos, estigmas e exclusão. Mas o que eu passei é pouco em comparação ao que vi muitos amigos trans passarem, exclusão da família, prostituição compulsória por ser o único meio de se sustentar, agressões físicas, ameaças, humilhação…”, conta.

Grande parte dos problemas sofridos pela população trans está na dificuldade em serem tratados como o sexo que se identificam. Para Levi Galvani, “pela minha parte não é difícil ser reconhecido como homem, é natural, sou eu e ponto, mas em relação as outras pessoas, tem uma certa dificuldade sim, parecem não aceitar isso, mas de qualquer jeito eu sempre exijo respeito”.

Levi Galvani  do movimento LGBTQIA+
Levi Galvani conta a dificuldade da sociedade em aceitar que ele seja reconhecido como homem, mas enfatiza sempre exigir respeito (Foto: Arquivo Pessoal)

Até mesmo dento da sigla existem preconceitos envolvendo os transexuais. Além disso, movimentos como o feminismo radical não reconhecem mulheres trans como mulheres.

Recortes são necessários

Allan Novischi comenta também sobre as questões sociais acerca da causa LGBTQIA+(Foto: Arquivo Pessoal)

Quando trata-se de um grupo tão diverso, se fazem necessários alguns recortes. A LGBTfobia também pode vir acompanhada de preconceitos de classe e raça.

Allan Novischi, estudante de pedagogia e militante da causa LGBTQIA+, explica. “Não podemos jamais esquecer que a questão racial é um agravante sem tamanhos para o preconceito que uma pessoa vai passar pela vida. Viver em uma sociedade estruturalmente preconceituosa é entender que nós, moradores de periferias somos um alvo imensamente maior [..] É necessário entender que um homem branco, gay, de classe média estará em um espaço de ascensão social muito maior do que qualquer pessoa negra, independente do gênero ou sexualidade, pois os privilégios que lhe são atribuídos lhe colocam nesse patamar”.

Outro conceito muito importante para analisar o preconceito é a chamada “passabilidade”. LGBTQIA+ que são cisgêneros e não aparentam sua sexualidade, ou seja, se passam como héteros, estão menos sujeitos a ataques.

Ellen Alves da Silva Costa milita na causa LGBTQIA+
A militante do movimento LGBTQIA+ Ellen Alves da Silva Costa destaca que as mulheres lésbicas são vítimas constantes de lesbofobia disfarçadas de curiosidade ou mesmo “tesão” (Foto: Arquivo Pessoal)

Ainda se tratando de gênero, mulheres lésbicas também enfrentam problemas. Ellen Alves da Silva Costa, estudante de psicologia e militante, declara: “Nós, mulheres lésbicas, somos vítimas cotidianamente de lesbofobias mascaradas de “curiosidade”, “tesão” e “palpites”. Nosso direito a intimidade é constantemente violado pelos curiosos de plantão que demandam incansavelmente respostas sobre nosso sexo, nossos corpos são alvo de nojentas cantadas, somos vistas como puro objeto de desejo e prazer para homens heterossexuais, cansados de suas vidinhas sexuais tediosas”.

Conquistas

Interessantes avanços foram feitos na causa LGBTQIA+. Em 2010 casais homoafetivos conquistaram o direito a adoção. Já em 2011 a união civil entre pessoas do mesmo sexo foi declarada legal pelo Supremo Tribunal Federal. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou uma resolução que permitiu aos cartórios registrarem casamentos homoafetivos.

A conquista mais recente para os LGBTQIA+ foi a criminalização da LGBTfobia pelo STF. Agora crimes de ódio contra a população LGBT serão punidos na forma do crime de racismo, cuja conduta é inafiançável e imprescritível e com pena variável entre um e cinco anos de reclusão, de acordo com a conduta.

Yuri Apolinário é umas das idealizadoras do Coletivo KO de arte e cultura LGBT+ que luta contra a opressão
Yuri Apolinário é umas das idealizadoras do Coletivo KO de arte e cultura LGBT+ que luta contra a opressão (Foto: Arquivo Pesoal)

Para Yuri Apolinário, umas das idealizadoras do Coletivo KO de arte e cultura LGBT+, “isso foi um passo muito importante na luta contra essa opressão. Mas ainda é muito pouco. O fato de ter se tornado um crime, não quer dizer que todos os criminosos serão pegos e julgados. Ainda mais quando se tem presidentes e deputados, que cometem esses crimes diariamente e nada acontece com eles. Isso legitima a opressão”.

Muitos reclamam da falta de meios para denúncias e também da dificuldade em provar a agressão. Mas Sabrina Alves, estudante de história, nos dá um panorama diferente. “Um dia uma prima homofóbica começou a me dar um sermão e eu disse pra ela que ia gravar, agora que homofobia é crime… Bom, nunca mais ela disse nada, fica aí pra gente refletir”.

Para Sabrina Alves, se impor em algumas ocasiões pode auxiliar na luta diária contra o preconceito (Foto: Arquivo Pessoal)

Caminhos para a mudança

Apesar de a LGBTfobia ter se tornado crime, isso não foi a suficiente para frear todo o preconceito e agressão. Para Ellen, “a educação é nossa ferramenta de transformação social mais imprescindível! Até que ela se concretize e se torne realidade em todos os territórios existenciais que compõem nosso país, precisamos de leis que garantam a livre e segura circulação da população LGBT, com todos seus direitos afiançados”.

“Como sou professora acredito muito no poder da educação e da cultura. Só com educação se muda uma cultura de sexismo, LGBTfobia e machismo. Na teoria as políticas educacionais são muito boas, mas na prática deixam muito a desejar”, acrescenta Yuri.

Para Sabrina, a questão vai mais a fundo. “O combate à LGBTfobia é um trabalho de base, a polícia é homofóbica, o sistema, o patrão e a empresa também são. É muito difícil impor medidas que não vão sair do papel”.

1 Comentário on “Orgulho e preconceito: O cotidiano da população LGBTQIA+

  1. E em cada passo e cada ato a gente avança nesse terreno árido da tal democracia, conscientizar , acolher, aumentar a cada dia as fileiras e ocupar os espaços públicos, institucionais; fazer valer a voz de milhões de nós. Essa consciência de pertencimento de ocupar os cargos públicos e de quem deve decidir nossas vidas também pode ser por um de nós. É
    fundamental para diluir também essa estrutura doentia dessa sociedade hipócrita. Ou a gente se posiciona coletivamente ou seremos oprimidos e retaliados pelo sistema. Abrir o debate da importância da participação política deve ser constante entre nossos pares.

    Se olharmos hoje os dados de quem está decidindo a nossa vida pública ficaremos assustados, temos um total de 11 bancadas a sua maioria votam contra o povo e pasmem, das 11 podemos contar e com um pouco de insegurança com a sindical composta por 43 deputados e com a dos Direitos humanos com 23 deputados apenas.
    Para um Estado com tanta diversidade sem sombra de dúvidas o crescimento da bancada evangélica é assustador, dos 513 deputados federais, 195 são evangélicos , na verdade são fundamentalistas, conservadores, preconceituosos ao extremo, que expressam sem meias palavras tudo que suas mentes cristalizada lhes permitem e somado aos outros tantos que não se identificam com as causas humanitárias, que estão la pela agropecuária, pelos planos de saúde , pelas empreiteiras etc. Diante dessa realidade nos tornamos ” formigas enfrentando um elefante”. Então está passando da hora dos que buscam direitos como nós, ocuparmos os cargos que decidem leis , expansão, retirada de direitos e políticas públicas para atender também a nossas demandas sociais. Chega de abandono, basta de desrespeito.

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