O mercado livreiro e o livro como ferramenta política

De acordo com levantamento, aumenta interesse em livros de cunho político no Brasil(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil-2018)

A leitura de livros, os lugares que vendem livros, e os livros em si estão em momentos importantes no Brasil. A demanda por livros não esmoreceu no país. Há muitas pessoas comprando livros. É o que indica a última pesquisa de mercado da consultoria Nielsen com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, que mostra um aumento real no volume e no faturamento de livros vendidos de 15 de junho a 12 de julho, em comparação com o mesmo período do ano passado. De acordo com o Presidente da Associação Nacional de Livrarias, Bernardo Gurbanov, a expectativa de quebradeira com a pandemia foi menor do que se imaginava. Não que o cenário de leitura do Brasil seja bom – na verdade, é bem horrível.

[Nota do editor: Mesmo com o aumento no volume de vendas entre 2019 e 2020, no acumulado, entre 2006 e 2019, o setor encolheu 20%, como você pode ler aqui]

Dados do Digital News Report, do Reuters Institute, divulgados em abril de 2020, mostram que o maior canal de informações do brasileiro é a internet. Cerca de 87% da população utiliza como principal fonte de informação – TV tem 79%. Desses 87%, 64% admitem utilizar o Facebook como fonte principal para o consumo de notícias, enquanto 55% utiliza o Whatsapp. Apenas 35% checam se a notícia recebida é falsa. Uma pesquisa do Estadão, de 2016, indica que 44% da população não lê livros nem revistas – 30% admitem nunca ter comprado um livro na vida.

Mas a pesquisa da Nielsen/SNEL oferece alento para as expectativas do futuro. A inclusão de pequenas livrarias e editoras na Lei Aldir Blanc, que vai destinar R$ 3 bilhões para o setor cultural, também é um bom sinal para o mercado livreiro. Mas como tudo no Governo Bolsonaro é 8 ou 80, temos uma situação prestes a degenerar: o Governo Federal quer aumentar a carga tributária do livro em quase 7 vezes, dizendo que “quem consome livro, na grande maioria, são pessoas de alta renda.

Ministro Paulo Guedes quer tributar livros, mesmo com os baixos índices de leitura no país
Proposta de reforma do ministro Paulo Guedes quer taxar o mercado do livro (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

As informações do sétimo Painel do Varejo de Livros no Brasil, em números absolutos: foram vendidos 2,95 milhões de cópias, o que resultou em faturamento de R$ 117 milhões para o mercado. No acumulado do ano, no entanto, o setor apresenta queda de 9,77% em faturamento e de 10,48% em volume. De janeiro a julho, foram vendidos 18,86 milhões de unidades e os estabelecimentos monitorados pelo instituto de pesquisa faturaram R$ 846,14 milhões.

O livro da mudança que toda livraria terá que ler

Modelo de venda do livro está migrando para o online
O modelo de consumo de vendas online é um caminho pavimentado pela gigante Amazon (Foto: Processos Fotograficos/Flickr-2017)

As dinâmicas antigas que sustentam o modelo financeiro das livrarias estão em corrosão há anos. Marcas famosas de livrarias estão quebrando, como a Saraiva e Cultura, e elas dão calote em editoras, com pagamentos muito longe de serem quitados, em longas e draconianas negociações que sufocam os profissionais que fazem livros. O processo de consignação em acordo com as partes há muito não é sustentável.

O modelo online de vendas só vem para cimentar um caminho que já era percorrido pela gigante Amazon. A gigante big tech se converteu no principal cliente das editoras, exatamente por não trabalhar com consignação. Mesmo assim, a empresa biolionária de Jeff Bezos aplica políticas agressivas comerciais que não encontram paralelos com as pequenas editoras, porque a competição não ocorre em condições iguais de oferecimento de preço. Por outro lado, milhares de livrarias e sebos vendem pelo site da Amazon no modelo de marketplace, o que dá segurança para quem não tem condições de ter um site ou gerar tráfego o suficiente. É outro 8 ou 80.

Ainda se deve considerar o peso do covid-19. A pandemia acelerou um modelo de venda mais híbrido, em que a livraria física se alicerca em outros meios.

No resto do mundo

A equação de covid-19 e livros também pode ser verificado em outras partes do mundo. A Itália, que em março se tornou o epicentro da pandemia na Europa, começa uma recuperação do seu setor editorial. Na França, o clima também é de otimismo: entre 12 de maio, um dia depois da reabertura gradual das lojas físicas, e 12 de junho, as vendas de livreiros independentes cresceram 29% em relação a 2019. No Reino Unido, a procura por livros cresceu cerca de 33% em relação ao mesmo período em 2019, e as vendas online tiveram um aumento de 400% na comparação com o ano passado.

No final de março, o ministro da economia da França, Bruno Le Maire, queria categorizar as livrarias como serviços essenciais, mas elas seguiram fechadas no país, até a flexibilização. Há muita discussão em países sérios de como as livrarias e os livros são importantes.

Uma discussão tão distante no Brasil como se estivesse do outro lado do universo.

Por razões óbvias.

E não é sem surpresas que se verifica um aumento de interesse por leituras de cunho político.

Na edição 108 do jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, o jornalista Murilo Basso oferece uma reportagem sobre a polarização ideológica da sociedade brasileira atual e os reflexos diretos no mercado editorial. Ele costurou um artigo a partir de entrevistas com editores e acadêmicos, e explica por que a média mensal de vendas de livros sobre política vem aumentando desde as “Jornadas de Junho” de 2013. Sua visão vai da direita a esquerda. Afinal, ambas abastecem o mercado livreiro com muita coisa.

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