Rage Against The Minneapolis

Capa do terceiro e último disco de músicas próprias da banda Rage Against The Machine

Na madrugada de 3 de março de 1991, em Los Angeles, Estados Unidos, depois de uma perseguição, a polícia espancou um homem negro que tinha recusado parar em uma abordagem de rotina. A agressão contra Rodney King foi a chama que acendeu a pólvora que explodiu um dos motins mais violentos da história dos Estados Unidos. Os distúrbios de Los Angeles começaram de verdade mais de um ano depois, desencadeados em 29 de abril de 1992, quando um júri absolveu os oficiais envolvidos do Departamento de Polícia de Los Angeles – três homens brancos e um hispânico. A agressão dos policiais foi filmada por um civil, George Holliday, que estava em sua varanda perto do local, e enviou as filmagens para KTLA, uma emissora local de notícias. Milhares de pessoas na área de Los Angeles se revoltaram ao longo dos seis dias após o veredito de inocência. [Veja o vídeo aqui. Imagens fortes].

Tudo começou na região sul da cidade de L.A., espalhando-se em seguida por toda a região do Condado da cidade – como é chamada a zona metropolitana nos EUA. Aconteceram saques, assaltos, incêndios, assassinatos e danos materiais, com mais de US$ 1 bilhão de prejuízo. Foram 63 pessoas mortas durante os distúrbios mais violentos. Como a polícia local não conseguiu lidar com a situação após quase uma semana de protestos, o Corpo de Fuzileiros Navais e a Guarda Nacional da Califórnia foram chamados conter o tumulto nas ruas.

A batalha de Los Angeles

LA Downtown (Foto: Saddleroad/Pixabay)

É sob esse cenário, tenso e denso, que o mexicano Zack de La Rocha e o negro Tom Morello criaram, na mesma Los Angeles, uma das bandas de rock mais interessantes da indústria musical, o Rage Against The Machine. Sua mistura de rap metal, metal alternativo e funk metal, em letras politizadas como uma paulada na cara, chamaram atenção de imediato. Com músicas fortíssimas como Killing In The Name, Bullet In The Head e Bombtrack, o álbum é cheio de riffs e batidas certeiras de uma fusão de rock pesado e elementos de hip-hop, com o vocal gritado e bem cantado de Zack, em um casamento à perfeição com o conteúdo político e as letras. Killing in The Name fala a palavra fuck 17 vezes, e é sobre violência policial e racismo, numa referência direta ao ocorrido com Rodney King. O disco de estreia do Rage Against The Machine foi lançado em 10 de novembro de 1992. Vendeu mais de três milhões de cópias, e ficou 89 semanas seguidas no top 200 da Billboard.

A provocativa capa do álbum de estreia, com a foto de um homem em chamas – era o monge vietnamita Thích Quảng Ðức , que ateou fogo em seu próprio corpo em 11 de Junho de 1963, em uma rua de Saigon, para protestar contra a administração do então Primeiro Ministro Ngô Đình Diệm – era uma provocação no contexto da Guerra do Vietnã.

Em 1999, sete anos depois do disco de estreia, a banda de rock Rage Against The Machine lançou seu terceiro e último disco de músicas próprias, The Battle Of Los Angeles. A capa de The Battle of Los Angeles é a ilustração é de um artista de L.A. conhecido pelos nomes de LA Street Phantom, Joey Krebs e Joel Jaramillo. Ele fazia intervenções na cidade da Califórnia ao estilo de Banksy. A arte em si é um grafite de um homem com o punho levantado, e dentro do contorno do desenho, está escrito “a batalha de Los Angeles” em inglês.

Rage Against deve retornar neste ano
Zack de La Rocha e Tom Morello em ação (Foto: Noel Vasquez/Getty Images)

Os ideais sócio-políticos bem enraizados na linguagem do Rage fez o documentarista Michael Moore gravar videoclipes para a banda. Moore é famoso por documentários icônicos como Tiros em Columbine. A canção Sleep Now in the Fire ganhou um clipe sob sua direção, gravado bem no centro da principal região de Nova York para a economia americana, Wall Street. Outra música escolhida foi Testify, a primeira faixa de The Battle of Los Angeles. Nele, a banda e o diretor mostram que pensam sobre dois candidatos à presidência dos Estados Unidos – George W. Bush (o filho) e Al Gore, dois lados da mesma moeda, na visão do Rage e de Moore.

O álbum foi lançado em 2 de novembro de 1999, mesmo dia da eleição para presidente, com os americanos na escolha entre o republicano Bush (que ganhou) e o democrata Al Gore.

Vinte anos depois, em 2019, para a surpresa de muita gente, Tom Morello e Zack de La Rocha fizeram as pazes, e anunciaram a retomada das atividades do Rage Against The Machine, com shows previstos para 2020, ano em que os Estados Unidos queimam de novo nessa lição nunca aprendida de racismo, e de novo em distúrbios sociais por conta da morte de um negro.

A batalha de Minneapolis

Os Estados Unidos afundaram em uma onda de violência nas últimas semanas, que corre da costa da Califórnia a Nova York, de Minneapolis à costa do Texas: carros da polícia foram incendiados na cidade de Nova York e houve saques em Los Angeles, a mesma de Rodney King. O estopim dessa vez foi a morte de outro homem negro, o assassinato violento de George Floyd no dia 25 de maio de 2020. Ele foi morto durante uma operação policial em Minneapolis, a cidade mais populosa do estado de Minnesota, ao norte dos EUA. As últimas palavras de Floyd, “não consigo respirar”, se tornaram slogan de um movimento nacional de protesto que os EUA não viam há décadas.

George Floyd Memorial, 2020 (Foto: Chad Davis/Flickr)

O ex-policial Thomas Lane, um dos quatro acusados de participação na morte de George Floyd, foi libertado no dia 10 de junho, depois de pagar fiança de US$ 750.000 (por volta de R$ 3,7 milhões). Os outros acusados continuam presos. Lane e outros dois ex-agentes são acusados de cumplicidade nas acusações de assassinato imputadas a Derek Chauvin, o policial flagrado asfixiando o pescoço de Floyd com o joelho. Há imagens do assassinato em gravações de vídeo. Floyd tinha 46 anos. O ex-segurança negro, que tinha passagens criminais, foi abordado violentamente depois de denúncia de que ele teria tentado pagar a conta em uma mercearia com uma nota falsa de US$ 20.

Momento complicado

A trágica morte de Floyd fomenta um debate nunca alcançado sobre a divisão social nos EUA, e a crise de coronavírus vem como lenha nessa fogueira, que ainda será alimentada com gasolina na tentativa de reeleição de Donald Trump, em um momento complicadíssimo de queda econômica na América. “Acredito que o país esteja sendo confrontado com a pior crise desde a Segunda Guerra Mundial”, afirma Christian Hacke, cientista político dos mais respeitados no país. Mas alguns resultados dos protestos começaram a aparecer. O governador de Nova York assinou uma lei, aprovada no dia 12 de junho, no Legislativo do estado, que torna ilegal o uso de técnicas de estrangulamento e derruba o sigilo sobre processos disciplinares de policiais.

O que esperar de 2020, que ainda tem metade dele para ser consumida em chamas ou alimentada com bom senso? É um ano ávido por mudanças. Nas pesquisas mais recentes, o democrata Joe Biden (50%) ampliou sua vantagem para 14 pontos sobre o rival republicano Donald Trump (36%), que busca a reeleição na disputa de novembro. A queda do presidente americano está diretamente atrelada aos protestos antirracistas e pela pandemia nos EUA. O discurso do Rage Against The Machine, 20 anos atrás, era contra Bush e Gore. O que será em 2020? Uma balalha vem por aí, essa é a única certeza.

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