Medo e delírio em Hunter Thompson, jornalismo e o Brasil

O jornalista Hunter Thompson se matou com um tiro em 2005

O nome mais importante do chamado jornalismo gonzo foi o americano Hunter Thompson, até porque foi ele quem começou com tudo isso.
“When the going gets weird, the weird turn pro”, dizia ele.

É mais do que sabido desde o começo da década passada – os anos 2010 com sua ascensão meteórica e duradoura de redes sociais – diluiu para qualquer um que é “alfabetizado” a produção de conteúdo, que agora pertencem a quem tem internet e sabe escrever (ao menos até a segunda página, pois lendo qualquer contrato nunca lido dessas redes, o conteúdo lá postado nunca é 100% seguro e seu). E o que vemos passados 10 anos, é a desintegração moral e afloramento de tudo que é nocivo e tóxico na forma de sites noticiosos, perfis em redes sociais e blogs que espalham desinformação e fake news.

No Brasil, essa situação floresce a cada dia, continuamente fertilizada pelo chorume do montante social-digital do país, desde as “Jornadas de Junho de 2013”, pré-impeachment de Dilma Rousseff / PT, partido que sempre ergueu a voz contra a imprensa e as notícias a respeito de corrupção localizada em ambientes e práticas do poder na época, como o mensalão. O ambiente nunca isento e saúde financeira da grande mídia da imprensa também eram fatores para um jornalismo claramente enviesado, após a reeleição de Dilma em 2014. Com a força da gasolina dessa imprensa, o impeachment ilegítimo ganha carimbo de recibo de legitimidade. A máquina bolsonarista ganha mais tração com enorme popularização de app de mensagens como WhatsApp, e se torna um colosso nas eleições de 2018, com força até os dias de hoje.

Em 2005, um ano depois das operações do Facebook se tornarem online, Hunter Stockton Thompson se matou com um tiro.

Hunter se tornou uma dessas lendas vivas da contracultura dos anos 60/70, ao mesmo tempo criador e cria de um estilo próprio de escrever. Proprietário de uma personalidade excêntrica e inconsequente, Hunter subverteu de forma inédita a profissão de jornalista e todos os paradigmas até então considerados clássicos nela, ao se intrometer em primeira pessoa e ser personagem da matéria, em versões drogadas dos sofisticados estilos de jornalismo literário (new journalism, como é conhecido no original, nos Estados Unidos, o seu berço de nascimento).

O new journalism foi um estilo criado por Truman Capote ao escrever seu famoso livro “A Sangue Frio” (1965), ao narrar os crimes reais de um assassinato cometido por dois criminosos. Ele acreditava que a reportagem poderia ser uma arte tão requintada como qualquer outra prosa, e se esforçou para imprimir uma performance técnica e charmosa nessa narrativa criminosa, se aproximando do que poderia ser um romance. A história é sobre um pai, mãe, filho e filha, assassinados friamente, a tiros de espingarda na cabeça, por Perry Smith e Dick Hickock, dois homens recorrentes na vida do crime, no dia 15 de novembro de 1959.

O refinado jornalismo literário tem em Capote, Tom Wolfe, Joseph Mitchell, John Hersey, Gay Talese, Lilian Ross e outros geniais escritores seus principais expoentes. Pegando esse tipo de jornalismo literário, e acelerando a 300 quilômetros por hora sem fazer curvas, podia se produzir o perfil detalhado de um bandido numa matéria policial, por exemplo, ou de um mendigo num artigo de economia de mercados futuros, ou uma matéria de bombeiros que salvam vidas em vez das vítimas de um incêndio noticiado, e vice-versa e versa-vice. Tudo com textos longos e apurados, arquitetados com o lead do jornalismo, com checagem, entrevistas, investigação e pesquisa, jogado nas costas dos preceitos literários, com ênfase na força criativa das palavras. Hunter ia atrás do que ele chamava de “a parte mais podre da América, onde me sinto em casa”.

Trailer do documentário “Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson” de 2008. O filme foi dirigido por Alex Gibney e narrado pelo ator Johnny Depp, amigo de Thompson

Esse era o jornalismo gonzo. Os textos quase sempre escritos em primeira pessoa. O objetivo não é apenas narrar fatos, mas relatar a experiência de um determinado indivíduo com eles. O jornalismo gonzo hoje quase não existe, em sua forma pura e enviesada de maneira cáustica e sóbria – ainda que contaminada por todo tipo de intromissão -, mas uma aberração mutante dela se encontra hoje no Brasil com enorme facilidade.

Nascido em 1937, no Kentucky, interior dos EUA, Thompson estudou jornalismo na Universidade Columbia, em Nova York. Era fã do escritor Ernest Hemingway. No início da década de 60, era repórter freelancer e passa uma temporada na América do Sul, período em que escreveu reportagens principalmente sobre a Colômbia, Peru e Brasil. Morou no Rio de Janeiro, em 1963, um ano antes do Golpe Militar.

É aqui que a intersecção de Brasil e o jornalismo gonzo pode ser objeto de vista. O jornalismo gonzo é trazido aqui como uma perversão – o antes sempre focado no “eu”, se transforma em “nós” – nós contra eles, sendo eles, qualquer um que esteja em outro espectro de pensamento.

As opiniões no Brasil, desde as eleições de 2018, pré-Bolsonaro e pós-Bolsonaro, não são mais formadas com a leitura de jornais e revistas, nem com uma simples conversa de bar. As redes sociais atreladas a novos tipos de blogs de não-jornalistas militantes (uma moda lançada pelo PT nos anos 00, aliás) trocam informações de todo tipo, e abastecem uma população ávida por informações que corroborem o que elas acham, e não o que de fato espelha a realidade. Elas confiam mais na informação que circula na rede do que aquela publicada pela grande mídia.

A fama de Hunter Thompson começou a surgir em 1966, após a publicação de uma grande reportagem a respeito de figuras infames nos EUA. Um ano antes, Carey McWilliams, até então editor da revista The Nation, sugeriu que Thompson escrevesse uma matéria sobre o fenômeno das gangues de motociclistas que surgia. Era sobre os Hell’s Angels, gangue de motoqueiros que na época aterrorizava os EUA, e era sinônimo de encrencas com a lei, drogas e violência. Thompson fez amizade com os motoqueiros, e os acompanhou por 18 meses, fingindo ser um deles, testemunhando os delitos, cotidiano e a maneira de todos esses caras. Foi descoberto, apanhou, e escreveu então seu primeiro livro: ‘Hell’s Angels – Medo e Delírio Sobre Duas Rodas’.

Tiro certeiro: Um dos alvos preferidos do jornalista Hunter Thompson em seu trabalho foi o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon

Quando vivia em Copacabana, onde o jornalista morou e trabalhou como correspondente do Brazil Herald (periódico diário publicado em língua inglesa no início da década de 1960), Hunter escreveu sobre o Rio. “A Avenida Copacabana está sempre cheia à noite, no estilo de Miami. Aliás, o Rio lembra Miami, fisicamente, mas o esmagaria num confronto espiritual”.

No início de 2005, enquanto conversava ao telefone com a esposa, Hunter, que sobrevivera a overdoses no passado, se matou com um tiro na cabeça, em seu sítio, nos EUA. Era 20 de fevereiro e Hunter tinha 67 anos. Deixou a viúva e seu filho Juan. Escrevia para o site do canal esportivo ESPN, uma coluna intitulada “Rey Rube!”. Deve ter copiado Hemingway, que em 1961 também se matou com um tiro de fuzil.

A palavra “gonzo” tem significado controverso. Depois de ler um texto de Hunter, um repórter chamado Bill Cardoso, teria comentado: ‘Não sei o que está fazendo, mas você mudou tudo. Isso está totalmente gonzo”. A palavra em si, de acordo com Bill, vem de uma espécie de competição de bebedeira em que o último a cair é o gonzo. Em 1979, o Dicionário Webster’s definiu “gonzo” como “algo bizarro; desenfreado; extravagante; estilo pessoal de jornalismo”, definições que retratam não só a obra, como o próprio Hunter Thompson.

No Brasil, há algumas obras publicadas de Hunter. Hell’s Angels: Medo e Delírio Sobre Duas Rodas saiu pela editora LP&M, assim como Medo e Delírio em Las Vegas: Uma jornada Selvagem ao Coração do Sonho Americano, que a Conrad também publicou. Essa mesma também publicou Rum: Diário de Um jornalista Bêbado. Reino do Medo: Segredos Abomináveis de Um Filho desventurado nos dias finais do século americano saiu pela Companhia das Letras. E mais dois livros pela Conrad, A Grande Caçada aos Tubarões e Screwjack, completam a obra de Hunter Thompson no Brasil.

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