Guy Fawkes: As máscaras políticas da cultura

Protesto de 2012 em Londres, Inglaterra. (Foto: Benoit Perrot)

Lembrai, lembrai do 5 de novembro,
A conspiração da pólvora e o plano.
Eu não conheço nenhum motivo
Para que a conspiração da pólvora
Seja esquecida.”

Página do Facebook Alan Moore BR

Desde o nascimento da internet e popularização de tecnologias de vigilância e espionagem, a figura do hacker – especialista em invasão de computadores e dados pessoais – tomou um lugar no senso comum. O imaginário popular pede que eles pareçam pessoas misteriosas, para manter o sigilo e oferecer uma aura perigosa. Na verdade, muitos deles passam longe de ser um criminoso virtual. Qualquer pessoa que se dedique intensamente em alguma área específica da computação, e descobre utilidades além das previstas, e falhas nas construções das especificações originais, pode ser considerado um hacker.

Eventualmente, para hackers invasores, máscaras são necessárias. Uma muito usada, tornada famosa pelo grupo Anonymous, que pode pegar para si a fama de tornar a palavra hacker mais popular, e que faz invasões de sistemas alheios em contextos políticos importantes, é a máscara de Guy Fawkes.

Rosto de Che Guevara acabou sendo substituído em manifestações revolucionárias pelo rosto de Guy Fawkes (Foto: Alberto Korda)

A máscara na história

No início do Século XVII, a Inglaterra passava por grandes tensões sociais, causadas por disputas de poder entre católicos e os protestantes. Ela literalmente quase explodiu em 1605, quando Robert Catesby conspirou para assassinar o Rei James I e toda a câmara dos Lordes, ao tentar explodir o Parlamento em 5 de Novembro. O atentado ficou conhecido como a Conspiração da Pólvora, e foi evitado quando Guy Fawkes (o responsável por acender 36 barris de pólvora sob o parlamento) foi capturado.

O primeiro conspirador a ser preso se tornou um símbolo eterno de traição – o boneco a ser queimado, destruído, exatamente como nosso Judas. O evento é um marco da história britânica — com efeito, o 5 de Novembro é um feriado não-oficial nacional por lá e até outros países que fizeram parte do Império Britânico, como Austrália, Nova Zelândia.

Até hoje, crianças inglesas aprendem uma macabra rima relacionada ao golpe de Fawkes:

Remember, remember the Fifth of November,
The Gunpowder Treason and Plot,
I know of no reason
Why the Gunpowder Treason
Should ever be forgot.

(Em tradução livre: “Lembrem, lembrem, o 5 de novembro, / A Traição e Complô da Pólvora, / Não conheço nenhuma razão / Para que a Traição da Pólvora / Um dia seja esquecida.”)

Guy Fawkes tinha 16 anos quando decidiu trair seu país e matar seu rei protestante, que tratava puritanos e católicos como escória. Ele tomou a atitude mais rebelde — se converteu ao catolicismo e se tornou soldado nessa guerra, lutou na Espanha e se especializou em explosivos, até encontrar seu fatídico destino 20 anos depois. Foi trucidado a lá William Wallace em Coração Valente: enforcado, esfaqueado, mutilado, amputado, castrado.

Um governo que faz isso com seus inimigos merece ser explodido, e é por isso que para algumas pessoas, Guy Fawkes se tornou um símbolo de rebelião contra um estado opressor. Mais de 300 anos depois, anarquistas ingleses reabilitaram sua figura, nos nos 70 e 80.

A máscara na cultura pop

Rosto de Guy Fawkes no traço de David Lloyd
Arte de David Lloyd para a grafic novel “V de Vingança”de Alan Moore

Nas ruas londrinas dos anos 70, era comum encontrar um pôster que dizia “Guy Fawkes – o último homem honesto a entrar no Parlamento”.

Nos anos 1980, um escritor de histórias em quadrinhos – Alan Moore – jogou luz sobre Guy Fawkes, ao fazer V for Vendetta (V de Vingança, no Brasil), com o desenhista David Lloyd, onde criou uma narrativa distópica sob as sombras do regime de ultra-direita da primeira-ministra Margareth Thatcher. Em um futuro sem esperanças como o de 1984 de George Orwell, um anarquista surge das sombras para derrubar o governo tirano. Ele veste uma máscara com as feições estilizadas de Guy Fawkes, e começa a matar membros importantes desse governo fascista.

V de Vingança é uma das HQs mais importante de todos os tempos. Lançada em 1988, após a publicação dos primeiros episódios na revista em quadrinhos inglesa Warrior, entre 1982 e 1985, V de Vingança ataca o fascismo e questiona o anarquismo, e permite ao leitor discutir se os métodos violentos do protagonista V são válidos quando o alvo é o totalitarismo.

Muito apreciada por público e crítica, obviamente a obra se restringia a apreciação dos nichos de fãs de HQs. Mas V de Vingança teve uma adaptação em filme, uma produção cinematográfica homônima de 2006, dirigida por Andy e Lana Wachowski. Infelizmente, ela castrou criativamente o contexto político anarquista de V, tornando-o estéril de discurso e signficado, óbvio, para caber dentro das dinâmicas comerciais que um império capitalista como Hollywood exige. Alan Moore a renega, mas a cultura pop o abraçou, resultado direto da exposição na maior vitrine da indústria cultural: o cinema.

Guy Fawkes foi popularizado na HQ de Alan Moore
Trecho da grafic novel “V de Vingança” (Imagem: Alan Moore BR)

A máscara na política

Um público mais amplo em contato com o filme de V de Vingança, inadvertidamente, assumiu um novo papel, ao se apropriar e gerar a venda de milhares de máscaras de Fawkes. Em 2008, inspirados pela cena final do filme dos Watchowski, centenas de membros do Anonymous se colocaram diante da Igreja da Cientologia em Londres usando a máscara de Fawkes. Foi o catalizador para que cada vídeo do grupo e identidade visual fosse associada à mascara de V.

Em 2011, o movimento Occupy Wall Street fez seu manifesto contra a influência corporativa sobre a democracia e a falta de punição para os responsáveis pela crise econômica de 2008, havia manifestantes com a máscara de V. Em 2013, aconteceram as famigeradas “Jornadas de Junho”, com vários protestos em todas as capitais e principais cidades do país em pautas difusas e desconexas, antecipando a timeline do Facebook onde todos berram e ninguém ouve nada — um evento político tão grande que ainda está para ser analisado a priori pelos brasileiros. Em 2014, aconteceram outras marchas políticas ao redor do globo, que se estenderam por locais como Alemanha, Austrália, China, Estados Unidos e Suécia. Sempre tinha mascarados no meio. E, todos eles, muitos manifestantes usavam a máscara de V/Guy Fawkes.

O rosto de Che Guevara, famoso quando fotografado por Alberto Korda, foi substituído por Guy Fawkes como ícone revolucionário nas novas décadas da popularização das redes sociais.

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