Confinamento, literatura, viagens e sonhos

Ponte dos Suspiros, o mesmo local em que Tomás Antônio Gonzaga, ativo participante da Conjuração Mineira, declamava suas juras de amor por Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília (Foto: Wikipédia)

O distanciamento social provocado pela pandemia tem sido por nós amenizado com a leitura de bons livros, forma criativa para fugir da clausura e dar asas às fictícias viagens, além de reavivar os sonhos a serem ainda concretizados. Outra fuga do “cárcere” é relembrar os momentos felizes da nossa vida.

Aliamos aos excelentes artigos da Revista EFE na defesa da importância do livro e do mercado editorial, este capenga em nossa nação. Com tristeza lemos que a cultura se transformou em caso de polícia com a nomeação de um capitão da polícia militar baiana para o cargo de secretário nacional de fomento e incentivo à cultura. Não conhecemos o dito miliciano e não sabemos do seu envolvimento com a cultura, além das artes militares. Porém, tudo nos leva a crer que diante da sua formação militaresca não se apresenta com as melhores qualificações para aquela importante secretaria. Espero que não opte pelo aprisionamento da cultura aos gostos e opiniões de determinados grupos fanáticos com vieses religiosos ou políticos. A cultura deve contemplar a pluralidade de opiniões e ideias.

Não bastasse isso, o ministro Paulo Guedes com seu escabroso elitismo pretende tributar pesadamente os livros. Com o aniquilamento do Ministério da Cultura não temos uma efetiva política de leitura. Vislumbramos ser uma estratégia para ceifar a formação de outros antifascistas ou daqueles que são contrários a todas as formas de ódio.

Nesse burburinho de acontecimentos, contrapondo esses tempos sombrios, recordamos que em certa oportunidade participamos de uma Conferência Internacional no Chile, a convite do estimado Prof. Dr. Cláudio de Mauro, então prefeito de Rio Claro, cidade do interior paulista, para discutirmos as políticas internacionais de @-democracia, a inclusão digital dos cidadãos nos processos decisórios de suas cidades. Acredito que já estávamos a frente do nosso tempo por sonharmos com a ampliação da base de participação popular nas decisões públicas e no seu controle efetivo.

Literatura

Pois bem, nos intervalos das conferencias, eu e Cláudio tivemos limitado tempo para visitar as casas do poeta Pablo Neruda que, além da sua qualidade literária, foi engajado no processo político chileno e se opôs ao governo do general Pinochet, resultando no seu exílio. A obra de Pablo é marcante em nossa formação humanística e política, constituindo em importante referencial para o nosso viver.  

Havíamos já lido quase todos os seus livros e no seu Canto Geral compreendemos a importância do bem-estar geral, a luta pela liberdade, bem inalienável à nossa existência digna e que não pode ser maculada pelo Leviatã. Suas casas: La Cascona (Santiago), La Sebastiana (Valparaiso) e Isla Negra, são depositárias da liberdade da cultura universal em promover a emancipação das pessoas.  

A casa da literatura de Pablo Neruda
Isla Negra, a casa de Pablo Neruda em El Quisco, no Chile. (Foto: dicaschile.com.br)

Isla Negra, onde repousa na eternidade o corpo de Neruda, casa em forma de veleiro, trouxe-nos um sentimento indescritível do nosso encontro espiritual com Pablo. A emoção nos tomou conta e nos levou às lágrimas. Caminhando pela casa, em visita guiada, quando nos encontrávamos no seu aposento, numa das extremidades da casa-veleiro, minha veia poética sobressaiu e, num rubor de pura audácia, ao ver aquele singelo aposento envidraçado com vistas para o Pacífico, comentei de inóspito para a guia de que naquele belo aposento seria eu capaz de também criar excelentes ondes à amada, Cecília. De imediato aquela gentil guia completou, – “com certeza, porém, sem a qualidade das odes de Neruda”. Irrompemos em risos. São momentos inesquecíveis do encontro do autor com o seu leitor. Quem sou eu para ousar qualquer comparação com o dom divino de Neruda em expressar poeticamente a vida.

No ano passado quando transitávamos pela Avenida da Liberdade, em Lisboa, com os amigos da família Teruel, deparamos com o Instituto Camões – Instituto da Cooperação e da Língua Portuguesa. De imediato nos veio a memória Os Lusíadas em que Camões mescla o plano mítico, dos deuses que protegem quem desbrava o mar, com o plano histórico dos grandes feitos portugueses ao construir o império ultramarino. Nosso ser se mescla as potencias gramaticais de nossa língua mãe. Dos nossos pensamentos e sonhos é que construímos e externamos nossas opiniões, o nosso “eu-profundo”.

Instituto Camões - Centro da literatura portuguesa
Instituto Camões – Instituto da Cooperação e da Língua Portuguesa, localizado na Avenida da Liberdade, em Lisboa, Portugal. (Foto: Reprodução)

E por falar em “eu-profundo” estamos a encontrar com Fernando Pessoa defronte ao Café A Brasileira, na Rua Garrett, outro fantástico escritor. A espiritualidade é sempre possível de nos tornar imortal quando encontros com o outro. “Navegar é preciso, viver não é preciso”, quão emblemática esta frase neste momento pandêmico. Sobre estes versos, certa feita deparamos com as considerações de que “não, como poderia, a vida é cheia de inexatidões, voltas e revoltas! ” Das inúmeras releituras possíveis do poema, cada qual com a sua, tenho para mim que viver para a morte não é viver. Não é viver se não temos uma utopia e um sonha a ser concretizado, todavia, é necessário navegar para podermos fazer a travessia para outros mundos, mesmo que o mar esteja tormentoso. Navegar é preciso.

Outras viagens literárias são mais curtas. Estávamos certa feita em Ouro Preto e em determinado momento, exaustos da flaniere pelo barroco mineiro, sentamo-nos num banco na Ponte dos Suspiros, o mesmo local em que Tomás Antônio Gonzaga, ativo participante da Conjuração Mineira, declamava suas juras de amor por Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília. Deportado nunca mais teve sua Dorotéia em seus braços. São essas juras de amor que também nos levou na escolha do nome de nossa filha, Marília. Nossas juras de amor paternal são eternas à Marília. Sua obra Marília de Dirceu em nossas almas permanecerá sempre eternizada.

Caso sejamos ainda agraciados com a dádiva do bem viver, no futuro, planejamos outra viagens e encontros com os nossos eternos escritores universais. Com Miguel de Cervantes Saavedra, na Espanha dos meus ancestrais, para o reencontro com o fidalgo Dom Quixote de la Mancha, o andante cavaleiro que trava a sua infernal luta do seu idealismo com a sua realidade. Sonha com o triunfo da justiça sobre a violência, e do amor puro contra a falsidade.

Com a França de Charles Baudelaire, não para comermos ópio e, sim, para flanar na Paris dos nossos estudos científicos sobre as possibilidades de vivermos ainda em comunidade nas cidades. As flores do mal, Baudelaire prenunciou com a potência gramatical dos seus versos a barbárie das cidades cosmopolitas capitalistas. Benjamin, seu discípulo, descreveu o perigo das pessoas entre as mercadorias e serem confundidas com elas, na crítica marxista é a reificação e a coisificação humana. Mas o divino Acaso, ou bem cedo ou mais tarde,/Ou a Virtude augusta, esposa virginal,/Ou o próprio Remorso (Oh! o abrigo final!)/Ou que tudo te dirá: “Morre, é noite, covarde! ”.

Martinho da Vila e sua literatura
O cantor e compositor Martinho da Vila, autor do pleonasmo necessário: “sonhei que estava sonhando um sonho sonhado” (Foto: Leonardo Aversa/Divulgação)

Baudelaire é voz poética que nos impede a covardia contra a queima sub-reptícia da cultura e dos livros.

A nossa Itália nos aguarda em breve para o reencontro com a divina cultura latino-romana de Dante Alighieri juntamente com panteão de seus escritores universais. Muitos caminham para o “último dos céus”, o metafísico Empíreo que nos permitirá contemplar a Santíssima Trindade e todos os santos e entes do cristianismo, para ao final, deparamos com a inexplicável visão do Criador ou, se assim quiser, o nosso Deus. Sempre encontramos Deus nas poesia e de maneira poética, a beleza divina da criação da Verdade.

Ao final, compreendemos a importância e relevância do pleonasmo de Martinho da Vila, “sonhei que estava sonhando um sonho sonhado”. É necessário sonhar sempre um sonho utópico de que ainda viveremos um mundo solidário, obviamente, iluminado pela literatura libertária e emancipatória das pessoas, somente assim, seremos dignos de viver uma vida plena. Vamos cantar:

Sonhei que eu era um rei
Que reinava como um ser comum
Era um por milhares, milhares por um
Como livres raios riscando os espaços
Transando o universo, limpando os mormaços

Viva o livro, seus escritores e leitores.

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