Análise: Gestão de crise em tempos de pandemia

É obrigação engajar em ações efetivas que possam diminuir os riscos do contágio descontrolado do Covid-19 (Foto: Marcello Casal/Agência Brasil)

Deparamos a todo instante com discussões sobre os rumos a serem adotados para o enfrentamento da pandemia do Covid-19, contudo, raramente deparamos com propostas de ações sistêmicas concretas para minimizar os riscos decorrentes do contágio e ações para o restabelecimento das atividades cotidianas.

O cenário ainda é de completa incerteza sobre o tratamento e a imunização eficazes do coronavirus. Não há um tratamento efetivo para o coronavirus, salvo alguns medicamentos que podem melhorar o prognóstico para alguns dos infectados em estado grave. Por sua vez, a imunização por meio de vacina ainda é incerta, alguns experimentos em fase de teste. Resta saber se caso tenhamos uma vacina efetiva e eficaz qual o tempo que será necessário para imunizar a população internacional e, em especial, a rio-clarense [gentílico para designar os moradores do município de Rio Claro, interior do Estado de São Paulo].

Outro complicador é que não temos a certeza sobre possível reinfecção de quem já contraiu a Covid-19, trazendo-nos dúvidas sobre a extensão de uma segunda onda de infecção do coronavirus e em que grau de gravidade.

Neste contexto de incertezas é nossa obrigação engajar em ações efetivas que possam diminuir os riscos do contágio descontrolado do Covid-19 e que possamos, dentro das limitações necessárias, planejar o retorno das atividades sociais, econômicas, educacionais, culturais e esportivas.

Assim, devemos planejar o nosso futuro diante da pandemia ou de outras emergências graves que por ventura viermos a deparar, visto que o isolamento social não pode ser um modelo de longa duração. É uma realidade que pode ser repetida em outras situações de pandemia, acidentes tecnológicos e eventos climáticos severos, cada vez mais recorrentes.

No Estado de São Paulo temos o Plano São Paulo para o enfrentamento do Covid-19 com enfoque na saúde, neste primeiro momento. Este plano não descura das vulnerabilidades econômicas imposta pela pandemia e também propõe que as ações de enfrentamento do Covid-19 tenham uma abordagem regional e local, inclusive, com conselhos municipalistas.

Resta-nos indagar: – qual o planejamento das ações efetivas elaboradas por nossa administração pública em parceria com os diversos atores sociais para enfrentar a pandemia e permitir no devido tempo o retorno das atividades cotidianas não essenciais?  

Rio Claro sem plano

Caso exista um plano municipal, em Rio Claro, de enfrentamento à pandemia, salvo engano, não foi este amplamente discutido com a sociedade e devidamente divulgado para o conhecimento de todos, até mesmo para legitimar as eventuais responsabilidades daqueles que o descumprir. 

Sem apontar culpados, as circunstâncias apontadas resultaram que a administração municipal local em face do agravamento atual do sistema de saúde para fazer frente à pandemia, resultou-lhe na contingência em editar decreto municipal para retroceder ao estágio inicial previsto no Plano São Paulo no sentido de determinar o fechamento de todas as atividades que não são consideradas essenciais por um lapso temporal de dez dias, aliás, como também ocorre em outras cidades paulistas.

Obviamente, o retrocesso local para o impedimento das atividades econômicas não essenciais é consequência das eventuais falhas no planejamento ou de inadequadas ações ou até mesmo na inação de certas providências que eram necessárias ao enfrentamento da pandemia.

Como superar essas adversidades e retrocesso?

A resposta não é simples e demanda que a sociedade rio-clarense construa um efetivo plano de ação para que as escolas, as indústrias, o comércio, os prestadores de serviço, as atividades sociais e esportivas possam, no devido tempo, retornar sem que ocorra sobressaltos ou retrocessos. Contudo, somente encontraremos respostas eficaz e efetivas na ciência e com o efetivo planejamento e gestão das ações para o enfrentamento da pandemia a nível local, avançando muito além de propostas repressivas ou sancionatórias.

Quando ocupamos o cargo de Secretário Municipal de Segurança e Defesa Civil [no município de Rio Claro] tivemos o cuidado de elaborar, com apoio de recursos federais, um moderníssimo Gabinete de Gestão Municipal Integrado – GGIM, para atender as situações emergenciais de nossa cidade, não somente na área de segurança pública como também na de defesa civil que engloba também a coordenação das ações para o enfrentamento de endemias e pandemias, nos termos da legislação vigente.

Na prática, o Gabinete funcionou efetivamente quando deparamos com a endemia de dengue que acometeu nossa cidade, com reuniões constantes dos diversos setores municipais, estaduais e federal. O resultando foi o planejamento adequado de efetivas ações para evitar o agravamento do contágio e que as atividades econômicas locais não fossem duramente impactadas. Aquela ação concreta resultou num modelo de gestão pública para o enfrentamento de crise e que mereceu reconhecimento internacional.

Com o apoio do Sistema de Saúde Pública, da UNESP e da Defesa Civil local pudemos realizar um sistema georreferenciado do controle do contágio da dengue no município e que resultou num trabalho científico premiado em congresso internacional de infectologia realizado no Hospital das Clínicas de São Paulo. Em tempo real, monitorávamos os locais de incidência da dengue e de imediato realizávamos as ações exigidas no protocolo do seu enfrentamento, em especial, com ações de bloqueio.  Incorporamos a cultura no georreferenciamento estatístico para a análise de informações como suporte a tomada de decisões o que ora está sendo replicado nesta pandemia.

Aquele Gabinete (GGIM) tinha por tripé o tratamento das informações, o monitoramento da cidade (câmaras digitais, pluviômetros digitais, estação meteorológica, etc.) e desenvolvimento do conhecimento. Amparados com o monitoramento, com o tratamento das informações e desenvolvendo conhecimento científico, obviamente, as ações foram prontas e efetivas.

Infelizmente, os diversos atores sociais não regaram a semente que plantamos para consolidar a nível local a política e gestão integrada de ações em ações emergenciais preconizadas pelo GGIM. Porém, nada é perdido e podemos com as devidas adaptações replicar aquela exitosa experiência para enfrentarmos o Covid-19.

É premente desenvolver ferramentas de gestão para viabilizar ações operacionais exitosas desde que ocorra a somatória dos esforços conjuntos dos atores sociais e de maneira sistêmica. Prioritariamente, a nível local devemos identificar as oportunidades e alternativas de ação que permitam a melhor coordenação dos diversos esforços com o objetivo de reduzir os danos da pandemia de maneira mais efetiva e integrada.

Em gestão de crise temos alguns princípios e metodologias a serem seguidas, ou seja, identificar os problemas locais relacionados a pandemia, a análise desses problemas, a divisão de responsabilidade entre os setores e segmentos sociais, o planejamento de ações e sua execução e, finalmente, o acompanhamento efetivo para suas adequações e correções.

Reforçando, num primeiro momento é necessário identificar toda as informações imprescindíveis sobre os problemas enfrentados com a pandemia, tratar as informações e analisa-las para então executar um “plano de ação”

O sucesso do plano de ação dependerá de como serão delimitadas as atribuições e competências de cada setor ou segmento da sociedade; a forma da ação no tempo/espaço, considerando a realidade momentânea de cada bairro ou região; o objetivo pretendido de cada setor ou segmento social para o resultado final, quantificar os custos políticos, econômicos e sociais e, finalmente, elaborar os indicadores e critérios de avaliação dos resultados pretendidos para correções e adaptações dos rumos.

Em termos locais, é necessário a coleta das informações essenciais junto a administração pública e, concomitantemente, as ações legislativas adotadas. Essencial é obter de forma transparente as informações sobre a infraestrutura e os recursos disponíveis na saúde pública e privada de nossa cidade.

No mesmo sentido, devemos identificar as informações sobre os problemas enfrentados pela iniciativa privada e como podem eles colaborar para que suas atividades sejam restabelecidas com riscos minimizados à saúde pública. A análise de riscos é imperiosa. Avançando, a iniciativa privada pode e deve indicar os recursos humanos e materiais disponíveis para que sejam firmadas parcerias público-privado para o enfrentamento da pandemia.

No processo de gestão de riscos locais para enfrentamento do Covid-19 algumas instituições são imprescindíveis à superação da crise. A Subseção da Ordem dos Advogados de Rio Claro com expertise em gestão de conflitos no contexto jurídico pode contribuir na construção dos diálogos entre os diversos setores e segmentos da sociedade e no apoio jurídico daqueles que necessitarem para que possam retomar às suas atividades socioeconômicas.

Fundamental é a participação da CIESP, ACIRC, Sindicatos patronais e de trabalhadores e entidades de serviços para contribuir na identificação dos problemas e na proposta de soluções viáveis à segurança e incolumidade da saúde pública.

Não se pode prescindir da participação das organizações de segurança pública do município para auxiliar com sugestões e ações na fiscalização e repressão aos abusos daqueles que descumprirem o plano local de enfrentamento ao Covid-19.

Por fim, o poder público por intermédio do Executivo e Legislativo são cruciais a gestão emergencial da pandemia em nossa cidade, devendo eles compreender que a eficácia e eficiência das ações não pode prescindir dos diversos segmentos e setores da nossa sociedade, garantindo que as ações sejam legitimadas. Portanto, a solução imediata é constituir um Gabinete Municipal de Gestão de Crise como ocorreu outrora com a endemia da dengue em nosso município. Este Gabinete poderá dar suporte para o pós-pandemia para a retomada da atividade econômica com a geração de emprego.

Devemos todos com coragem arregaçarmos as mangas e trabalhar para a união de esforços no enfrentamento da pandemia, independente, de ideologia, credo religioso, filiação partidária e opção de gênero e identidade de sexo.

Aprendi quando era gestor em defesa civil que em caso de emergência (acidentes, pandemias, etc.) sobreviverá não os mais fortes e – sim, os mais bem preparados.  

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